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Uma perspetiva de Cuidados Paliativos

Embora tivesse algumas “luzes” sobre o conceito de Cuidados Paliativos e a forma como esta Rede funciona, nunca esperei que algum dia tivesse alguém tão próximo a necessitar deles. Infelizmente a minha família e eu deparámo-nos com esta situação no ano passado e venho, assim, trazer um pequeno testemunho e toda a minha solidariedade e compreensão a quem neste momento esteja a passar por semelhante situação. Quando sabemos que alguém que nos é muito querido não se encontra bem, ficamos naturalmente preocupados e, mediante os nossos recursos, tentamos solucionar a situação. No fundo, quando protegemos alguém de quem gostamos, estamos, simultaneamente, a proteger-nos a nós também.

Sara Beja
21 Set 2013

O processo de morte implica um confronto dramatico com a inevitabilidade da finitude humana, com a qual quem cuida e, neste caso, o familiar ou amigo, tem de se confrontar – o que não é, nem pode ser, linear.
Compreender e aceitar a morte do outro é também fazê-lo perante a nossa própria morte, projetando que um dia também o nosso trajeto vital será concluído. Trata–se, portanto, de um trabalho inicialmente psico-emocional e espiritual que possibilita uma posterior abordagem assertiva e integral à pessoa que se encontra declaradamente em fase terminal da sua vida como consequência a uma doença crónica, irreversível e incurável, com o objetivo último de proporcionar um final de vida digno e com a maior qualidade possível.
No momento em que se vive esta situação, é extremamente complicado racionalizar que tipo de ações ou atitudes poderão proporcionar dignidade e qualidade. Pelo que penso que seja o doen-
te (até poder) quem deve decidir o que quer. Quando o doente já não pode decidir, por falta de meios próprios e capacidade, neste caso, há que fazer aquilo que se sabe que ele gostaria mais.
O modo como atendemos e cuidamos do outro espelha aquilo que somos e sentimos, assim a forma como lidamos com o processo de morte e o morrer condiciona a conceção individual de Cuidados Paliativos e, consequentemente aquilo que seremos capazes de fazer para alcançar o melhor para o doente.
Ao inicial choque e sofrimento avassalador que envolve o doente ao conhecer um prognóstico de morte, acresce ainda o sofrimento da família e dos amigos, que também vão entrar num processo de luto, sendo basilar um acompanhamento global e personalizado desta rede. A Rede de Cuidados Paliativos ajuda-nos a conquistar uma aceitação para encontrarmos uma esperança rea-
lista com base no que ainda é possível fazer pelo doente e pela família, nomeadamente no esclarecimento das várias dúvidas que vão surgindo. Quanto ao que fizeram pela minha avó, agradeço eternamente, pois foram incansáveis em todas as formas de apoio durante todo o processo.
Acredito que o sofrimento não está na morte per si, mas sim na forma como se viveu – o que se fez, o que ficou por fazer e dizer. Para o doente acresce o medo da morte propriamente dita – o que irá sentir, a dor –, o desconhecido, a necessidade de encontrar conforto nos últimos momentos de vida. Não vale a pena esconder, mentir ou ignorar a inevitabilidade do derradeiro dia. Vale a pena, sim, preparar o melhor possível esse acontecimento, dando a oportunidade ao doente para finalizar os assuntos pendentes e tranquilizá-lo de que faremos o que pudermos para atender aos seus desejos. E todas as palavras verdadeiras e sentidas devem ser transmitidas ao doente com carinho por aqueles que o amam. A certeza de ser amado conduz mais eficazmente à serenidade.
É nas situações críticas que cada pessoa conhece a sua verdadeira capacidade de resiliência, encontrando forças interiores que habi-tualmente desconhece. Por isso, admiro profundamente essas pessoas, a forma como lidam com o próprio sofrimento e com o daqueles próximos que as rodeiam.
Os cuidados paliativos não são determinados pelo diagnóstico da patologia em si, mas sim pela situação e necessidades que o doente ostenta, de forma global, sendo direcionado claramente para aqueles que estão em fase final da vida. Este desenho final, não obstante todo o sofrimento que acarreta ao doente, familiares/amigos, e mesmo aos cuidadores formais, permite uma preparação emocional para aquilo que é inconjurável. Ou seja: procuro dizer que uma morte expectável permite um tempo de assimilação da realidade, preparando e gerindo o fim de vida e oferecendo apoio no luto, a fim de alcançar a aceitação e a paz de espírito, traduzindo um longo e doloroso trabalho interior, mas que foi concretizado.




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