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Um olhar em redor

Há muito que tencionava fazê-lo, mas fui hesitando. Porém, tendo reflectido, concluí que não seria nenhum despropósito tecer algumas considerações sobre o vazio de ideias, senão mesmo o ridículo dos incríveis comentários dos repórteres encarregados de acompanharem os jogos de futebol transmitidos em directo pela Televisão. Uma lástima: mal as partidas começam, logo eles (aos pares, como se um só não chegasse para dizer disparates), iniciam o seu diálogo, exibindo os seus conhecimentos, “trocando a bola entre si”, completamente alheados da outra, da verdadeira, daquela que vai rolando no terreno de jogo.

Joaquim Serafim Rodrigues
21 Set 2013

E desfazem-se em pormenores risíveis, sem cabimento algum, em vez de seguirem as jogadas com isenção, objectivamente, num tom moderado conforme se impõe em televisão – e não com gritos histéricos perante a iminência de um golo, só toleráveis em relatos radiofónicos, que é coisa muito diferente. Mas eles desconhecem isso!
Citam pormenores, estatísticas, enquanto o jogo decorre, acerca do jogador fulano de tal (jogava no Inter há dois anos onde marcou só ele trinta e seis golos, mas agora joga aqui, no “Dinamite”), um tipo raçudo, é aquele, o careca, camisa 9, é pena ter mau feitio, chuta bem com os dois pés, mede um metro e oitenta, pesa setenta e cinco quilos e calça 44 (falta a medida do colarinho mas havemos de tê-la um dia…).
Entretanto, lá de baixo, junto ao rectângulo (mais um!) vem a nota de reportagem, palpitante, emotiva: “Olhem, desculpem interromper – entra, entra, consente o outro lá de cima – pois, pois, desculpem lá, dizia eu, mas aqui o Manuel Joaquim já se levantou por três vezes do banco, não pára de dar instruções para dentro do relvado…”. Pudera, queria talvez que as transmitisse para a bancada!
E o “grilo” prossegue, sempre em cima do acontecimento: “Já agora deixem-me acrescentar, mas ali no outro banco, o Zé Gregório, muito nervoso, não larga o quarto árbitro, sempre a protestar, e é tudo, por enquanto. Logo que haja outros motivos de interesse estarei atento”. E assim por diante, um massacre.
Os outros retomam a conversa entre si, ditando sentenças, opinando acerca desta ou daquela substituição (mal feita, em seu entender) aconselhando tácticas, atropelando-se um ao outro na ânsia de demonstrarem que sabem tudo, quem é que chuta melhor com a parte de dentro do pé, quem marca melhor os cantos, os livres – como este, por exemplo, que agora vai ser marcado ali, à entrada da grande área, junto à meia lua. Vamos ver, diz um deles, se aquele, o vinte e seis, é baixote mas costuma enfiá-las lá no alto, no canto superior direito, na “gaveta”, como se diz na gíria. O tipo jogava no Rayo Vallecano, de Espanha, mas veio para o “Explosivo”, que este ano se reforçou muito. Mas, oh!, desta vez errou o alvo, que pena!
Depois, estes “catedráticos” da bola, sobrepõem-se aos próprios árbitros: “O quê, não sai o amarelo, ao menos? Com outro juiz talvez visse o vermelho, mas este deixou os cartões em casa, só pode ser isso”. O outro, entretanto, concorda: tratou-se, efectivamente, de uma entrada a varrer…
Não disfarçam, sequer, o seu pendor clubista – só falta entrarem no campo e meterem eles a bola na baliza que lhes convinha. Um desconchavo completo!
Após o jogo, as doutas opiniões: resultado injusto, face àquilo que as duas formações produziram, pois o “Explosivo” perdeu mas foi a equipa que mais dominou. Quanto ao árbitro, um desastre, nota dois, numa escala de um a cinco. Reprovou, o infeliz, bem pode tratar de outra vida!
Relatos televisivos: o reino do absurdo, do inimaginável, da presunção, da incompetência à solta. Tudo isto pago, não poucas vezes, por todos nós. Até quando?…




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