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Os pagadores de promessas…

Opovo é sereno! Foi assim que Pinheiro de Azevedo tentou acalmar as “hostes” no período do PREC, em 1975. “O povo é sereno” figura como uma espécie de tradução simplista daquilo que, sobre os portugueses, já havia escrito o poeta Miguel Torga em 1961, no seu Diário IX: “É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disso. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados”…

Victor Blanco de Vasconcellos
20 Set 2013

E porque somos uma sociedade de “pacíficos indignados”, custa aceitar que os políticos, e os candidatos a sê-lo, usem (e abusem) do Povo para atingirem os seus objetivos pessoais e partidários!
Isto mesmo é constatável na atualidade. Apesar de o Povo português se encontrar “de tanga”, são inúmeros os candidatos a cargos políticos (autárquicos) que fazem promessas desrazoáveis – claramente incumpríveis, porque implicam elevadas despezas para o Estado.
Na verdade, é incompreensível (melhor: é inconcebível) que esses políticos (ou candidatos a sê-lo) continuem a pretender vender-nos gato por lebre, presumindo que o Povo tuda aceita resignadamente. Como se a indignação e a revolta (de que falava Torga) não tivessem limites!
Infelizmente, os portugueses já se habituaram a que os políticos sejam uma “classe” de incumpridores de promessas. Tal como algures disse o Prof. Hermano Saraiva, também eles (políticos) aprenderam a escrever a lápis – porque consideram que nada é definitivo e, as mais das vezes, convém-lhes utilizar o “lápis” – porque, assim, é mais fácil de apagar o rol de promessas que fazem e que, depois, rapidamente se volatilizam.
O “velho” António Champalimaud costumava dizer que “à exceção da honra, tudo se compra e tudo se vende”. Infelizmente, a maioria dos políticos que nos têm governado (a todos os níveis) nas últimas décadas parece que excluiu a “exceção” evocada por Champalimaud. Para quase todos eles – “fazedores de promessas” –, até a honra parece passível de venda a retalho! Porque, quando se faz uma promessa, faz parte da “honra” o seu cumprimento…
É evidente que muitas dessas promessas eleitorais (incumpríveis!) são apresentadas ao Povo de forma “complexa”, de maneira que depois possam ser “desmentidas”. É por isso que, como todos sabemos, a maioria dos políticos da nossa praça utiliza uma linguagem hermética, confusa, recheada de palavras “caras” ou de expressões estrangeiras. Assim (pensam eles) será fácil, depois, contradizer o que se disse antes…
O engenheiro Edgar Cardoso costumava dizer que aprendeu com o engenheiro Duarte Pacheco a expressar-se de forma simples e clara. Ter-lhe-ia dito este último: “Meu rapaz, tudo o que não conseguires explicar a um polícia é porque está mal explicado”!
O problema é que os políticos acham que “explicam bem”, mesmo quando nada “explicam”. E acham que o Povo, “pacífica e resignadamente”, tudo aceita. Mas fazia-lhes bem (aos políticos) ver o filme “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte (1961)…




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