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A Produção da Pilhagem

Nasci no tempo da confusão, do medo, do doentio elitismo, isto é, na máquina ou labirinto de homens velhacos e de pouca extensão: uns bateram-me com o olhar e com dentes cerrados; outros aprisionaram-me desejos e oportunidades; outros roubaram-me no Ser e no Estar. Eis bom e paciente leitor, porque não deve ver-me como culpado, mas sim como sofredor. Não recordo durante a minha vida de ter sido roubado nas atividades por conta d’outrem. O que contrataram pagaram e o que fiz além do esperado compensaram.

Artur Soares
20 Set 2013

Hoje fazem-se pilhagens no Ser, porque não se ajuda na subida e poucos são os que aconselham; no Estar, porque há sempre alguém à porta para entrar, se a deixamos aberta e ainda se é empurrado; no Ter, porque como o mar rouba e é roubado, a pilhagem passou a norma, tendo como (principais) protagonistas os governantes deste país, desde 2010 até ao presente.
Há dias, num encontro de militares em Évora, o coronel Vasco Lourenço afirmou que “Portugal está sequestrado pelo medo, por corruptos, por aldrabões, por pessoas sem ética nem moral”.
Também no discurso de Marinho Pinto na abertura do Ano Judicial 2013, cidadão preocupado e justo, referindo-se à pilhagem feita por estes portugueses de segunda, duma terceira categoria, aos aposentados do Estado, afirmou: “Nós, a população ativa, temos uma dívida de gratidão para com os idosos deste país. Foram eles, os que hoje estão reformados e aposentados, que pagaram as escolas onde estudamos gratuitamente, os hospitais onde nos tratamos sem taxas moderadoras; foram eles que pagaram as maternidades onde nasceram, sem qualquer custo para as famílias d’alguns e dos que agora consideram apenas como um custo económico que é preciso reduzir ou eliminar”.
“O Governo português – continuou – tem de respeitar os pactos que os reformados e os pensionistas celebraram com o estado e com a segurança social quando eram trabalhadores ativos e garantir-lhes um fim de vida com dignidade”.
Na verdade, não cabe na cabeça de ninguém existirem corruptos, piratas organizados na pilhagem e, como que de arma em punho, atiram contra quem lhes pagou “as maternidades e os estudos”: funcionários do Estado e os outros.
Estamos a ficar um povo de estômagos vazios, porque a nossa (deles) democracia caminha com ilusórias politicas e por políticos ignorantes da vida pública. Desse modo surge a aversão, a produção da pilhagem, o medo do dia seguinte, jogos escondidos e frieza do pensamento.
Qualquer pessoa deve ter o cuidado de, por alguns instantes, desviar-se de um homem irado ou descontrolado. Mas de um hipócrita, de um incompetente ou salteador, deve fugir permanentemente.
Estes dois últimos primeiros-ministros, homens que aprenderam a vida sem nunca comprarem um pedaço de pão com o dinheiro do seu trabalho; que nunca conseguiram compreender as lágrimas de alguém ou que nunca sentiram a vida dura de quem trabalhou dezenas de anos ao serviço do país, jamais poderão ser líderes do seu povo e muito menos seus defensores.
Assim, como quem pensa ser convincente, como quem pretende identificar-se como capaz de resolver a crise, vem este iniciado da honra e da verdade dizer ao Zé que a economia está a crescer e que as exportações subiram. O que devia explicar era que o desemprego está incombatível. Logo, não há produção. Sobre o crescimento da economia, o que devia explicar era que a pilhagem aos vencimentos dos trabalhadores e aos pensionistas do Estado desde 2011 tem sido o dinheiro que paga as dívidas ao estrangeiro sem que os portugueses as fizessem.
Eis um homem, eis dois primeiros-ministros e vice Paulo Portas, de Portugal, que nunca irão ter a sorte de morrer como as árvores – de pé!
Qualquer governo com honra e verdade mínimas tem respeito ou até medo da cultura e da democracia do povo. Os nossos governantes de após 2010 atuam ao contrário: veem e sentem que é o povo que deles tem medo. Porquê? Por que nas horas de decisão, fugimos dos bons combates. Deixamo–nos enrolar; como a galinha, não pensamos; sugam-nos a independência nacional e o pouco que temos, sem descobrirmos que este género de líderes políticos não passa de verdes alunos auto-assalariados, que vivem à custa da fome de quem trabalha ou trabalhou.




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