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Segundo resgate? Mas, não estava tudo acautelado?

Passos Coelho anda a tentar convencer-nos de que a economia está a crescer porque há contenção orçamental e estamos a pagar mais impostos. Não é a primeira vez que o faz e pelo andar da carruagem talvez não seja a última. A este respeito, referiu no encerramento da convenção autárquica do PSD, dirigindo-se ao partido, mas com a comunicação social por perto, que o esforço dos portugueses nos últimos dois anos “está a valer a pena” uma vez que o país está a “crescer conformadamente no segundo trimestre”.

Luís Martins
17 Set 2013

Não é que não possa sentir satisfação pelo facto do indicador do PIB ter melhorado, embora continuando negativo, mas é manifestamente exagerado e inexplicável pela teoria económica que o crescimento advenha da recessão. Nenhum manual o diz e também não o ouvi de nenhum professor.
Alguém acredita que a produção aumente quando as pessoas não têm dinheiro para comprar? Exceptua-se aqui o caso do que se produz para exportação, o que não será significativo, já que apenas uma quarto das exportações portuguesas não são combustíveis nem lubrificantes. Alguém acredita que a produção aumente por via da motivação no trabalho quando os trabalhadores se confrontam com remunerações progressivamente diminuídas por causa do aumento de impostos? A verdade – ninguém o consegue desmentir – é que o país continua em recessão. É também verdade que o desemprego diminuiu algumas décimas, o que é positivo, mas o emprego remunerado recuou, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), para níveis 1997. Mas há mais: também as famílias portuguesas e o Estado cortaram fortemente no consumo de bens duradouros desde o último trimestre de 2010, de acordo com a mesma fonte. Sendo assim, como se explica o crescimento de 1,1% no segundo trimestre do ano? É difícil perceber o que se passou, mas não colhe a justificação oficial. Aqui a recessão não pode explicar o crescimento. Não há entre uma e outro uma relação de causa-efeito. E também não foram tomadas medidas ainda que possam explicar este crescimento.
Já foi admitido que batemos no fundo, mas que não voltaremos lá. Confirmaremos mais tarde se é assim. É claro que quando se chega ao fundo do poço, pode sempre ficar-se lá ou, em alternativa, ir-se subindo. Se a opção for esta última, o processo é prometedor, embora podendo ser mais ou menos longo. Em todo o caso, continua-se dentro do poço. Tudo depende da largura, da profundidade, se tem água ou não e da velocidade de recuperação. Ao que nos dizem, o nosso buraco é bastante fundo, largo e com o oceano a vazar água para o seu interior, restando-nos as boas medidas para nos safar-nos e começar a subir. Se a decisão for no sentido da promoção do emprego e do crescimento – escrevo no condicional porque ainda falta a decisão competente sobre a matéria –, as hipóteses da recuperação se fazer em menos tempo são sempre maiores. Não sendo assim, o pior pode acontecer. No mínimo, pode não sair-se do fundo.
Ao mesmo tempo que o Governo continua a fazer a apologia de medidas de austeridade como sendo responsáveis pelo recente vislumbre de crescimento económico – e falta ainda saber as que nos apresentará no orçamento de Estado para 2014 –, tem introduzido no seu discurso a iminência do segundo resgate, que antes afastava liminarmente. Não sendo original, uma vez que várias instituições internacionais e diversos especialistas o previram antes, agora insiste, em jeito de ameaça, que a nova ajuda virá. E Passos Coelho fala dele como se nada tivesse a ver com isso, quando tem tudo. Mas que desplante! E desta vez não pode desculpar-se com nada. 
O tempo da inocência já lá vai. Nem nós acreditamos em tudo o que nos dizem, nem o Governo nos fala já de coração aberto e sincero. A gestão da informação é, nos dias que correm, um processo crítico. Mais agora do que antes. Talvez por causa do acto eleitoral quase imediato, mas também daquele que pode estar ainda relativamente distante.




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