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Humanismo ou tirania

A sociedade portuguesa tem sofrido uma agitação bastante intensa nestes dias férvidos do verão.Foram os incêndios que iluminaram os céus de Portugal, transformando enormes extensões de montanhas e florestas num braseiro e depois num manto negro. Felizmente, a tragédia acalmou, embora com um ou outro fogo. É a crise financeira com toda a sua agudeza. É a crise da colocação dos professores no início de novo ano letivo. São as novas medidas do Governo para empurrar para fora da carruagem do Estado os trabalhadores da função pública.

Manuel Fonseca
17 Set 2013

É a contestação do primeiro-ministro ao tribunal constitucional, interrogando-o sobre quantos postos de trabalho criou para os mais de 900.000 desempregados existentes.
Tudo um filme com muitas imagens e contornos de entrevistas acaloradas que preanunciam tempos difíceis.
Há algo que é fundamental na condução da vida pública, sobretudo em relação aos responsáveis pela governação: o dever de considerar o seu trabalho como um serviço ao povo em geral, tendo como horizonte o bem comum e não o interesse dos grandes grupos económico-financeiros.
É obrigação dos governantes tratar os cidadãos como pessoas, de igual dignidade à deles. De facto, não é isso que se verifica, pois o que se lança para o exterior são números de todas as variedades e feitios.
Reconhecemos que este Governo herdou uma situação global, sobretudo financeira, muito difícil e comprometida. Que é seu dever, na medida do possível, ir corrigindo defeitos e desequilíbrios. Mas há diversos “modus operandi”, como nas viagens de automóvel. Quando um automobilista não respeita regras está sujeito ao desastre com as consequências que daí resultam.
Há decisões que chocam com as sensibilidades das pessoas, nomeadamente a da requalificação dos funcionários públicos. A maneira de agir é descartar a torto e a direito pessoas que têm servido o sistema público, em geral com muito sacrifício e mérito. Não se conformando com decisões do tribunal, inventam-se subterfúgios e atalhos que conduzem ao mesmo propósito.
Um técnico de recursos humanos, num programa televisivo, afirmava que esta medida governativa de despedimentos pode ter graves consequências porque dispensa pessoas muito válidas e necessárias, que depois têm de ser substituídas com elevados custos. E apresentou o exemplo do Canadá, que dispensou uns milhares de funcionários e, passado pouco tempo, teve de admitir o dobro.
Em relação ao sistema educativo, recordo uma intervenção dirigida ao ministro Crato. Numa entrevista da SIC, uma participante perguntou-lhe: – Como professor não o choca sujeitar professores com 10, 15 ou 20 anos de ensino a um exame? Na verdade, os professores têm experiência, licenciatura, estágio, avaliações constantes, ações de formação, alguns com mestrado, doutoramento. Esta exigência que surgiu ultimamente tem tanto de originalidade como de ridículo.
Com a remodelação das zonas pedagógicas, há professores colocados a 100, 120, 150 quilómetros ou mais. Isto qualifica as personalidades que gerem a coisa pública.
Humanismo ou tirania?
Após esta declaração, expresso o meu profundo respeito para com esses homens e mulheres que trabalham na área mais importante da vida nacional: a educação. E desejo que sejam mais reconhecidos e tratados.




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