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Braga em contraste (I)

O desenvolvimento de qualquer território exige uma análise apurada dos seus pontos positivos e negativos. Não existe aldeia, vila ou cidade que não tenha os seus prós e contras. No entanto, a solução para obviar os pontos fracos prende-se com a sua minoração ou abolição, enquanto que os pontos fortes exigem maximização. Desta feita, e debruçando-nos sobre Braga, constatamos que muitos são os pontos fortes desta cidade, nomeadamente: a) o património material – igrejas, capelas, santuários, fontes, chafarizes, museus, casas brasonadas e outros diversos edifícios cuja traça e interiores são dignos de ser contemplados como, a título de exemplo, a Casa dos Falcões, a Casa dos Coimbra, o Palácio do Raio, o Salão Egípcio, entre muitos outros,

Sofia Marques
16 Set 2013

b) a gastronomia típica e os seus óptimos restaurantes
c) a hospitalidade e simpatia das gentes
d) as ligações viárias, ferroviárias e a relativa proximidade face ao aeroporto Sá Carneiro no Porto
e) elevado número de alojamentos – unidades hoteleiras de 5, 4, 3 estrelas, albergarias, hostels, casas de turismo rural na envolvência.
f) certa equidistância relativamente a outros locais que importa conhecer como sejam Guimarães, Ponte de Lima, Viana do Castelo, Parque Peneda-Gerês
g) existência de um aeródromo e kartódromo onde ocorrem várias iniciativas
h) lojas de comércio tradicional, inclusivamente, só com produtos nacionais
i) uma grande e belíssima sala de espectáculos – o Theatro Circo
Contudo, não podemos ignorar que Braga é terra de contrastes e que da sua exígua circunscrição territorial ordenada evoluiu para um espaço tentacular e desordenado, qual polvo que lança os seus tentáculos em todas as direcções; que de um cidade arborizada e de tílias perfumada progrediu para um cemitério de árvores mutiladas – merecendo o honroso título de “Braga arboricida” – onde os jardins românticos dão lugar aos jardins graníticos e as catedrais da fé perdem fiéis para as catedrais do consumo.
Assim sendo, Braga detém pontos fracos que importa mitigar e solucionar. A título exemplificativo, são eles:
a) a degradação do casario do centro histórico e a consequente deslocalização das populações para outras áreas habitacionais
b) a falta de preocupação com a imagem dos edifícios, muitos dos quais com as ligações eléctricas à vista, causando péssima impressão,
c) a falta de consciencialização, quer por parte da classe dirigente, quer por parte da população em geral, para a questão do ambiente e para a manutenção da limpeza das ruas,
d) exíguo empenho na educação cívica (ex.: paredes repletas de graffiti),
e) inexistência de espaços verdes por oposição a uma concentração exacerbada de betão armado,
f) rede de transportes urbanos insuficiente.
Temos assistido, infelizmente, a uma estandardização dos padrões de urbanismo nas cidades, tornando-as cada vez mais indiferenciadas e menos atractivas. Se a população, em geral, e a classe dirigente, em particular, não tomarem consciência dos erros que têm sido cometidos em prol da destruição do património e da necessidade de alterar e renovar mentalidades face à emergência de directrizes que apoiem a genuinidade e a autenticidade dos locais, dentro de poucos anos não existirão diferenças de maior entre os mesmos. As cidades portuguesas têm uma característica: a sua antiguidade resultante do facto de Portugal ter sido um dos primeiros reinos a definir as suas fronteiras. Daí que construir em altura, revestir os prédios de vidro, numa clara alusão a arquitecturas mais modernas não faz qualquer tipo de sentido nestes locais. Claro que, se visitarmos Nova Iorque, Abu Dhabi ou qualquer outra cidade mais recente, ficamos maravilhados com as suas construções em altura e os seus projectos megalómanos, pois estes não colidem com a realidade da cidade.
Agora, durante anos e anos, investir em novos fogos de habitação, espraiando a cidade para lá dos seus limites urbanos, sem qualquer preo-cupação em revitalizar as zonas históricas com as suas construções singulares e identitárias é um erro crasso, ruinoso. Numa economia cada vez mais globalizada, o que diferencia os lugares são os seus traços unívocos e não me parece que os “caixotes” em que a generalidade das pessoas sobrevive tenha alguma coisa de distinto, genuíno e autêntico. Trata-se de soluções urbanísticas desprovidas de beleza e harmonia relativamente ao território onde foram erigidas.




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