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O senhor César e os seus problemas

O senhor César apareceu lá na consulta esta semana. Setenta e quatro anos. Alto, magro, boa figura. Entrou no consultório muito inquieto mas decidido e olhou para mim, estranha inquilina daquele gabinete. Apresentei-me e, concedida a autorização para assistir à trama principal (porque a consulta já começou assim que o doente entrou em cena e não apenas quando começa a dizer as falas), disse:… mas atenção… não o disse só. Têm que imaginar como eu o ouvi: imaginem-no a dizer isto como se tivesse oculto, guardado lá dentro há muito tempo.

Frederica Vian Costa
15 Set 2013

Como se tivesse pensado naquilo durante anos e agora, finalmente, conseguiu traduzi-lo por palavras e, por, isso entra ali decidido, e pouco lhe interessa se estou só eu ou estão cinquenta espectadores porque é o seu momento:
– Apesar destes medicamentos todos que me tem dado, eu-não-durmo. E não durmo sabe porquê? Porque há pessoas que têm uma pedra, mas eu tenho um bocado de carne. Sabe? Um bocado de carne cá dentro que se chama coração.
A médica leva as mãos à cabeça em desespero de causa enquanto o senhor César ao comover-se (porque disse, finalmente, disse!) revelou a trama: a secretária marcou a consulta porque o senhor César tinha problemas de sono; a doutora dá-lhe medicamentos para dormir, porque, efectivamente, ele não dorme; o senhor César, tem problemas de sono, porque os seus problemas são problemas de “Heart”.
Qual César, senhor de outros tempos, este César tem em si as preocupações do mundo, porque para ele este mundo é o seu império.
E eu, uma inquilina naquele gabinete, atrevo-me a completar o epílogo ao lembrar-me de outro coração em carne que me disse o que eu nunca quero esquecer: “Trago comigo as preocupações e as esperanças deste nosso tempo e as dores da humanidade ferida, os problemas do mundo…”. Mas esse, ao invés de despejá-los num gabinete qualquer, de joelhos, foi colocá-los aos pés de quem não nos tira o sono.




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