Fotografia:
A herança de um homem revoltado

Mais de metade da primeira página do diário Libération de anteontem apresentava uma fotografia com o rosto de um dos cientistas mais conhecidos e prestigiados de França, mas não foi a dimensão científica que o jornal entendeu dever sublinhar para noticiar a morte do geneticista Albert Jacquard. O título “Morte de um homem revoltado” enfatizava, ainda assim insuficientemente, a natureza combativa de um homem que se empenhou em múltiplas causas, para apoiar os sem-abrigo (ao lado de abbé Pierre, por exemplo), os estrangeiros em situação irregular ou os que se opõem aos organismos geneticamente modificados (OGM), por serem causadores de uma poluição genética da vida e atentarem contra a soberania alimentar das nações, podendo um número reduzido de multinacionais ter o controlo efectivo dos alimentos de todo o planeta.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
15 Set 2013

A cada vez maior mercantilização do planeta e das pessoas foi um dos motivos da revolta de Albert Jacquard. Durante muito tempo, houve um confronto de diversas doutrinas; hoje, porém, “apenas uma parece merecer a aprovação de todos; apresenta-se como sendo científica e desenvolve as consequências de uma ‘lei’ aparentemente tão prenhe quanto a do mundo físico: a ‘lei do mercado’”, escreveu o cientista em Ensaio sobre a pobreza. A herança de Francisco de Assis (Mem Martins: Europa-América, 1997), um ensaio que é muito proveitoso reler.

O geneticista explica que “o fundamento dessa doutrina é a afirmação de que todo e qualquer bem tem um valor, e que este pode ser medido em função de uma unidade monetária”. Depois, exemplifica: “Um quintal de milho, uma hora de prazer ou um rim para transplante podem, por definição, ser tarifados. Estão acessíveis a qualquer um, desde que este o possa pagar, isto é, dispor do dinheiro necessário. Esse dinheiro tornou-se o bem supremo, pois permite obter todos os restantes. O que importa é consegui-lo, por exemplo, trabalhando e recebendo um salário”. No entanto, “o nosso século aperfeiçoou métodos muito eficazes, que passam pela especulação. Basta, para que se enriqueça, ser-se já, à partida, rico”.

Nota Albert Jacquard que “o processo aparentemente irreversível de enriquecimento dos ricos e empobrecimento dos pobres foi posto em prática e acelera os seus efeitos. Funciona tão bem no que toca ao relacionamento entre Estados ou grandes empresas como entre indivíduos. A Terra inteira tornou-se uma selva onde a virtude principal é ser-se competitivo, isto é, capaz de se levar a melhor sobre os restantes” (Albert Jacquard também deplorou o espírito competitivo que se instalou no sistema educativo, como se recorda num dos textos sobre o cientista que o Le Nouvel Observateur disponibiliza no seu site). O geneticista julga que uma humanidade assim se assemelha à que descrevia Georges Perec no romance O desaparecimento, que tinha a excepcional característica de nunca incluir a letra E (um constrangimento a que o tradutor português não conseguiu obedecer): “Pilhava-se, violava-se, mutilava-se. Mas havia pior: humilhava-se, traía-se, dissimulava-se. Ninguém mais parecia confiante relativamente aos restantes: cada um odiava o seu próximo.”

Para Albert Jacquard, “tudo está por saber, no que tem que ver com a forma como vivem os homens: uns com os outros ou uns contra os outros?” O certo é que “o estado da nossa Terra não joga a favor da forma de vida que, implicitamente, adoptámos”. De facto, “começamos a descobrir que as palavras de ordem da sociedade dominante, a sociedade ocidental basea-
da na competição, conduzem a colectividade humana à catástrofe”. Em consequência, “urge meditar e definir um objectivo aceitável para todos”, o que impõe uma interrogação: “De que tesouro beber?” A aventura humana de Francisco de Assis parece a Albert Jacquard “constituir uma das fontes mais ricas, susceptíveis de dar resposta às nossas questões e à nossa imaginação”.

“O futuro é hoje ditado pelos banqueiros. Para resolver os seus problemas, as nossas socieda-
des recorrem a um processo que crêem mágico: o crescimento, consumamos sempre mais e tudo irá da melhor maneira”, constata o geneticista. Tal caminho encontra-se, todavia, bloqueado. É preciso rumos diferentes, como o que seguiu Francisco de Assis. Ele ousou dizer que o que mais importa não é o dinheiro ou o poder. O fundamental é o respeito pelo próximo. Para Francisco de Assis, o homem e o universo constituem uma grande unidade, “somos primos dos elementos – a água, a terra, o fogo, o ar. Esta herança é preciosa para todos nós”. O agnóstico Albert Jacquard – que, segundo dizia o diário católico La Croix, preferia “o programa de vida em comum” proposto por Jesus às discussões sobre a natureza divina – gostaria, com certeza, que também esse fosse o seu legado.




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