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Socorro! Expliquem-me…

Há muitos anos, na Faculdade de Direito de Lisboa sofri o meu grande e único desgosto de amor. A paixão pela Justiça corria-me nas veias, era o meu único e amado sonho, sem ele julgava não poder viver. Os obstáculos eram grandes, as notas para ser admitida muito elevadas e a selecção era uma perfeita tormenta. Mas aí tudo bem, Latim e Filosofia para mim era muito mais fácil do que convencer o meu pai a consentir tal. Não podia nem queria admitir que uma filha sua frequentasse aquele ambiente tão masculino e não reconhecia grande mérito nas tropelias do tribunal.

Maria Susana Mexia
13 Set 2013

Valeu-me uma perseverante argumentação cheia de afectividade para conseguir o meu objectivo, entrar na Faculdade de Direito de Lisboa…
Mas O desencanto esperava-me, a agitação académica em plena Primavera Marcelista, os constantes comícios políticos, seguidos de pancadaria e prisões feitas pela PIDE, grupos de esquerda e extrema-esquerda, polícia de choque seguida da constante presença e companhia dos “gorilas”, tornaram-se para mim num martírio. Todavia tudo isto teria sido irrelevante se a matéria não fosse duma aridez que me sufocava e não tivesse descoberto que entre o Conceito de Justiça e de Direito havia uma distância abissal.
Volvidos alguns anos, já o meu pai habitava a ideia de ver a sua filha, empunhando uma orgulhosa toga, a defender casos importantes num qualquer tribunal, eu decidi mudar de rumo. Para trás deixei o macabro das aulas, o cinzento claustrofóbico daquela Faculdade gélida e, numa manhã de Primavera atirei-me para a colorida e solarenga Faculdade de Letras, caí nos braços da Filosofia, paixão antiga e fatal, com quem fui, sou e serei feliz para sempre.
Loucura de juventude, destino fatalista tão ao gosto da civilização grega ou a mão de Deus, não sei, mas inclino-me mais para a hipótese duma divina intervenção, que com toda a liberdade e racionalidade, me ensinou o caminho mais adequado à minha realização pessoal, social e humana.
Todavia e, não obstante o meu desconforto académico faces às leis, sempre considerei a Faculdade de Direito muito meritória, muito séria, ao longo de décadas tem formado excelentes profissionais e os seus professores sabiam cativar e transmitir, excepcionalmente, o amor e o saber, a virtude e a justiça, a lealdade e a integridade ético-jurídica.
Hoje, porém, ao passar em frente daquele imponente edifício que sempre me mereceu tanta admiração, fiquei perplexa, diria mesmo atordoada com uma faixa que estava colocada na sua frontaria.
Juro que a primeira reacção que tive foi a de voltar a estudar as mitologias grega e romana, a idade, o esquecimento ter-me-ão levado a trocar as divindades, já não existe a Coruja de Minerva ou já não consegue levantar voo ao fim da tarde como Hegel defendia e eu acreditava?
Pois não sei, caro leitor, mas adorava que alguém me explica-se a pertinência do nome desta Tuna Académica que, tão simpaticamente, acolhe os Caloiros deste ano lectivo da (des)graça de 2013-14.




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