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Democracia, uma enganosa camuflagem

Sem entrar em minuciosidades, vou definir a democracia, com fundamento na etimologia da palavra, já cristalizada e muito geral, como o governo do povo e para o povo. A falsidade, que envolve a democracia, não está no seu conteúdo específico, de caráter humano e quase divino. O conteúdo está enganosamente camuflado com o véu “pelo governo do povo”, do povo que, concreta e realmente, não existe. O povo é um conceito, uma abstração da mente, necessária e universal, cujo fundamento está no indivíduo concreto.

Benjamim Araújo
11 Set 2013

Na verdade, não vejo nenhuma incoerência nem despotismo do raciocínio se deslocar a palavra democracia para o neologismo “individuocracia”. O juízo que, agora, vou explicitar a respeito de individuocracia é o governo do indivíduo para o bem do indivíduo. É o governo, que autocontrola e autogere, por si mesmo, em função da sua fecunda autorrealização e para a realização dos motivos humanos do outro. Esta realização expressa-se, na cultura da consciência, da vivência e da indomável operatividade do humanismo com o seu rosário de superações, como o cavaquinho, os ferrinhos e as castanholas, no alegre vira minhoto.
De um modo geral, vamos partir do indivíduo, na sua globalidade, para desbravar os caminhos da cultura e construção progressivas da individuocracia, nas vertentes pessoal, social, política e religiosa.
O que é, então, o indivíduo? Para evitar a sua prisão nas masmorras dos cárceres da definição, vou enveredar pela sua descrição, embora singela. O indivíduo é aquele ser, que está ali, existente e concreto, a caminhar pela vida fora, trazendo às costas a pesada cruz da existência.
Por vezes, esse ser acalenta-se, desmedidamente, em ânsias de riqueza, prestígio, fama, buscando satisfações e prazeres. Por vezes, esse ser, com uma mão à frente e outra atrás, lá vai aguentando o filão das suas dores e sofrimentos, os seus medos, tormentos, angústias, melancolias e dissoluções. Mas o indivíduo também é aquele ser, que se orgulha de ser consciente, autónomo, livre, responsável e filho de Deus.
O indivíduo, na sua globalidade (na sua unidade holística, segundo Rafael Yus), onticamente fundamentado na unicidade do nosso ser, reverbera-se em três caminhos distintos e naturalmente integrados, conectados e imploradores de paz e sintonia. São os caminhos existencial, transcendental e transcendente. Vai ser por estes caminhos que o indivíduo vai cultivar, progressivamente, a individuocracia. Pelo caminho existencial, a nossa vida está calcetada de aquis e agoras. Pelo caminho transcendental, corre veloz, como faísca, a nossa autêntica natureza. Pelo caminho transcendente, contactamos com Deus. A individuocracia, como o ciclista, pedala sem cansaço, por todas estas pistas.
O indivíduo, como pessoa, tem por função, com as rédeas do diálogo, controlar, gerir e evitar a fragmentação e a rotura da vida existencial com a natureza autêntica. Quem apoia a rotura e a fragmentação é a autoritária, despótica e ilusória autonomia da mente, reforçada pelas paixões tempestuosas do coração.
Em política, predominam os partidos e o mata-bicho de cada um é defender, com unhas e dentes, a sua posição, em detrimento das outras. O seu alvo é a rejeição, a desvalorização e a rotura com outros modos de ver; a sua opinião é dogmática. A mente torna-se o martelo da sonora ditadura; o coração incendeia-se na braseira das motivações; as paixões fervem em cachão; desencadeiam-se furibundas tempestades de argumentações. Esconde-se envergonhada e amedrontada a globalidade e as imprecações rosnam de focinho enrugado. Volatiliza-se a paz e cobrem–se de enxundias os compadrios. Tudo isto joga bem com a petulante democracia.
Com a cabeça entre as mãos, questiono-me: – Estará esta democracia em sintonia com a individuocracia, onde deflagra a acolhedora bomba da paz e felicidade para cada indivíduo?
Contudo, em “Alegria de ser Catequista”, afirma o P. Luís Miguel Rodrigues, no “Dário do Minho” (29/8/2013): “O catequista, enquanto educador da fé, não guarda a fé para si mesmo; pelo contrário, ele é alguém chamado por Deus a anunciar, a transmitir e a dar testemunho dessa mesma fé, nas mais diversas circunstâncias da sua vida.” Não estará esta candente afirmação integrada na individuocracia?




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