Fotografia:
Desalinhado da partitura

As repercussões das críticas de Passos Coelho ao Tribunal Constitucional e aos respectivos juízes ainda se fazem sentir. Como estamos ainda em tempo de férias parlamentares e os assuntos não abundam, vou intrometer-me hoje na rama dos comentários. Eis a síntese: o primeiro-ministro pediu bom senso aos senhores juízes do Tribunal Constitucional, o mesmo é dizer, que seguissem a sua (de Passos Coelho) interpretação. Não foi atendido e ficou bravo, mostrando não possuir o que exige aos outros: bom senso. Aqui começa o tema.

Luís Martins
10 Set 2013

Seria de bom senso e de bom-tom, já agora, uma vez que é barítono, que Passos Coelho deixasse de pressionar, de uma vez por todas, o Tribunal Constitucional. Não lhe fica bem e evidencia desrespeito pela democracia. Devia saber que nenhuma nota, por mais aguda ou mais forte que seja, vai destruir a partitura. Pelo menos, enquanto executante a solo, isso não será possível. O que pode acontecer é interpretar mal ou prejudicar a melodia. Mas, àquela nenhum mal maior do que isso lhe poderá fazer. É que só pode ser alterada apenas por quem tiver direitos de autor, o que não é o caso. Ainda se coordenasse uma orquestra representativa bem afinada…
Gostos não se discutem. Daí que a melodia, vista de determinada perspectiva, pode até não ser interessante, mas bem tocada por todos os instrumentistas, dificilmente será mandada parar. Nem o maestro nem a plateia o farão. Depois do último compasso e se tiver havido boa execução – o que acontecerá se o concerto for bem preparado e todos lerem pela mesma partitura – haverá os aplausos da praxe. Tenho sérias dúvidas se no Governo actual todos estejam afinados pelo lá do diapasão. E também se a afinação com a plateia alguma vez existiu.
Uma vez no espaço do concerto, já imaginaram o que seria se um qualquer elemento do coro, mesmo que fosse o solista, resolvesse entrar fora de tempo e intervir sem que isso estivesse previsto e não se coadunasse com o que os restantes elementos tivessem preparado? Só por sorte é que não sairia asneira. Mesmo no canto livre, há riscos, como o de desafinar ou o de haver desencontro com a orquestra. Até se pode achar que é aborrecido, não há outro jeito senão seguir a partitura. Não respeitar isso, é o suficiente para que o conjunto acabe por desafinar. E se assim for, ninguém escapa. Nem os músicos, nem os coralistas, muito menos o maestro.
O tom do governo anda desafinado. Não é de hoje, nem de ontem. É de há tempos atrás. Sabemos que há músicos que escrevem com dissonâncias. Pontualmente, a dissonância até fica bem, pode exprimir uma ideia ou um sentimento. Sempre a desafinar é que não. Ninguém está disposto a ouvir uma melodia desafinada em toda a pauta. Se a partitura fosse escrita daquela forma, dificilmente seria percebida pelo público. A grande maioria que gosta de ouvir, embora não percebendo grande coisa da ciência musical, pensaria que se trataria de má execução do coro ou da distracção de um qualquer barítono.
Um bom barítono pode operar num ou noutro tipo musical. O que importa aqui é o registo por onde as notas musicais andam. Podem até ser relativamente altas, mas devem ser executadas sem berros, coisa que, por exemplo, nas últimas peças executadas ao nível governativo, não aconteceu. Um berro também pode ser musical, mas será certamente uma excepção. Nunca se escreve um berro. Escreve-se a nota e a intensidade. Nunca a expressão. E na partitura da nossa democracia também é assim.
Já que estou em maré de reparos, aqui fica o último desta crónica. Às vezes fica a impressão de que o barítono se engana na música com o propósito de culpar alguém, quiçá o autor da melodia, fazendo-se de Inês quando não é esse o seu nome. Temo que o objectivo seja justificar o resgate de uma nova melodia para não ter de cantar a de que não gosta. À cautela, sugiro que quem compuser um solo para o dito o faça mesmo para barítono.
Pode parecer que quis escrever uma crónica sobre música, mas não foi esse o meu objectivo.




Notícias relacionadas


Scroll Up