Fotografia:
Sobre rebanhos

Entre o que mais atrai uma enorme quantidade de pessoas, encontram-se os ajuntamentos de pessoas. Onde houver uma dezena de criaturas paradas, a olhar para o cimo de um prédio, a pasmar perante os trabalhos de obras públicas ou a opinar em voz alta sobre uma ocorrência qualquer, sabido é que, pouco depois, maior será o número de almas agregadas. Se um jornal ou uma televisão prometerem um grande ajuntamento, a concentração tenderá a ser bastante mais extensa.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
8 Set 2013

Se os média noticiarem que um produto cultural é um êxito, o rebanho encarregar-se-á de o consagrar. Diz-se que a Liliana Marise, a ambígua representação de uma cantora pimba numa telenovela TVI, é um sucesso e o sucesso resplandece. Garante-se que Joana Vasconcelos apresenta a exposição do ano e, imediatamente, se multiplica o número dos que a querem ir espreitar. Anuncia-se que um livro mal chegado às livrarias é já o mais vendido e aumentam os que desejarão levar para casa um tijolo de páginas que nunca serão lidas.

O rebanho, é sabido, atrai as ovelhas. Mesmo as negras. Há quem se diga irreverente, adverso a aceitar imposições e a seguir normas, e se apresse a vestir de branco ao saber que essa é, por uma noite, a cor do rebanho.

Os rebanhos surgem nos locais e nas ocasiões menos expectáveis. Há dias, num noticiário televisivo, um comandante de uma corporação de bombeiros apelava aos mirones para não irem assistir a um incêndio pois atrapalhavam o trabalho dos que se empenhavam em o extinguir. Os turistas das catástrofes não desdenham ir ver arder, assim como não deixarão de, mais tarde, rumar para o local onde se registará uma inundação causada pela subida das águas do mar ou de um rio.

No fim de Julho, um participante num programa televisivo emitido pela TVI, “Dança com as estrelas”, sofreu, durante o ensaio geral antes da estreia, um acidente muito grave que o colocou em perigo de vida. Qualquer alma não inteiramente desprovida de sensatez não poderia deixar de supor que a emissão do programa seria imediatamente cancelada. Todavia, errava. O programa iria para o ar. Tempos antes, a circunstância de não terem sido suspensas as festas da Queima das Fitas no Porto por causa da morte de um estudante, suscitou uma forte – e justa – indignação. Desta vez, ninguém se incomodou com que continuasse uma diversão que tinha colocado uma pessoa entre a vida e a morte. Tornava-se necessário satisfazer o rebanho televisivo. E o rebanho televisivo esteve à altura da indiferença pelo destino de uma vida, oferecendo a “Dança com as estrelas” a distinção de ser, na estreia, o programa mais visto do dia.

Em Espanha, o rebanho televisivo tem-se pespegado em frente do programa Cam­pa­mento de verano (Acam­pa­mento de Verão), emitido pelo canal Telecinco. Vendo duas ou três emis­sões, percebe-se que não é pior do que tan­tos outros real­ity shows idênti­cos ao Big Brother e sucedâ­neos. E, no entanto, Campamento de ver­ano sus­ci­tou uma enorme e exem­plar contestação.

Por causa de o programa ter exibido um conjunto de cenas humilhantes, a Hazte Oir (Faz-te Ouvir), que se apre­senta como uma comunidade de cidadãos activos e se tem empen­hado em erradicar os pro­gra­mas que vexam as mul­heres para aumen­tar a audiên­cia, lançou uma cam­panha online pedindo a diver­sas empresas para reti­rarem a pub­li­ci­dade que estavam a apre­sen­tar em Cam­pa­mento de ver­ano. A ini­cia­tiva foi muito bem sucedida e todos os anun­ciantes – Burger King, Danone, El Corte Inglés, McDonald’s, Nestlé, etc. – respon­deram pos­i­ti­va­mente à solic­i­tação que lhes foi endereçada, através de cor­reio electrónico ou de chamadas tele­fóni­cas, por mais de 50 mil pes­soas.

Além de instar os anun­ciantes a assumirem a respon­s­abil­i­dade em relação aos con­teú­dos dos pro­gra­mas em que se fazem pub­lic­i­tar, a Hazte Oir reclama que a Telecinco seja sen­sível a um grande sector da sociedade, que não quer pro­gra­mas que convertem a humil­hação e o desprezo pela mul­her num negó­cio e num espec­táculo. Em vez de con­vi­dar quem não gosta do pro­grama a mudar de canal, a Telecinco, diz a Hazte Oir, deve enten­der que olhar para outro lado ou “mudar de canal” não faz desa­pare­cer a humil­hação a que sujeitam a mul­her, que não pode ser ata­cada, insul­tada e vex­ada por nen­hum meio de comu­ni­cação social.




Notícias relacionadas


Scroll Up