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Um olhar em redor

Pedro Passos Coelho entrou abertamente em confronto com os juízes do Tribunal Constitucional. Porém, antes das decisões tomadas por este órgão jurisdicional supremo relativamente às questões que lhe são colocadas, o primeiro-ministro, em vez de as aguardar serenamente, observando aquela compostura exigível, e compatível com o seu alto cargo, permite-se pressionar desaforadamente esses mesmos juízes, advertindo-os para os inconvenientes de fazerem uma leitura demasiado “restritiva” da Constituição!

Joaquim Serafim Rodrigues
7 Set 2013

Não fosse tratar-se de matéria tão importante e transcendente, esta que nos afecta a todos como sabemos, e quase estaria tentado a dizer (e até vou dizê-lo) que Passos Coelho, ao proceder assim, consegue descer ao nível daqueles treinadores de futebol que, na antevisão dos jogos afirmam: «não gosto de pressionar os árbitros, tenho por eles o maior respeito, mas espero que, desta vez, estejam atentos às costumadas faltas praticadas pelo nosso adversário, cujos jogadores são useiros e vezeiros nas entradas à margem da lei, como rasteiras, puxões de camisolas, demoras na reposição das bolas em jogo (quando tal lhes convém, etc.). Mas, como disse, não é meu hábito referir-me às arbitragens”. Nem mais!
Mas, agora, falando a sério: como é que este homem que preside ao Governo, licenciado tardiamente não sei em quê (não podia fazê–lo mais cedo ocupado como estava desde muito novo em cursar política partidária nos “Jotas” do PSD), como é que Passos Coelho, dizia, se permite afrontar assim os mencionados juízes sem que nada lhe aconteça? E o Presidente da República assiste impávido e sereno a tudo isto e não faz um reparo, uma alusão a tão inconcebível comportamento, ele, que é (ou deveria ser) o principal garante do respeito devido às mais altas instâncias do país abarcando as próprias Forças Armadas?
Quem faz as leis são os políticos, não são os magistrados. Ora, se essas leis não estão bem, desactualizadas, por exemplo, porque razão não se empenha a classe política em modificar as mesmas após reconhecerem que devem ser alteradas?! Em vez disso, a maioria que nos governa, crispa-se toda ao ver chumbados, em parte, os seus Orçamentos de Estado pelo Tribunal Constitucional, contestando esses chumbos!
A mesma crispação ressalta e é notória nos discursos de Passos Coelho: a que espécie de povo imagina ele que se dirige ao falar assim? Teimoso, autoritário, quase dogmático, apregoando por vezes uma coisa e fazendo outra depois, não se lembrará que, uma vez apeado do seu cargo mais cedo ou mais tarde, será recordado provavelmente como um pretenso aprendiz de ditador que, aliás, já ninguém suporta?
Ficou famosa uma frase proferida por Marcelo Caetano numa altura de grande degradação moral e política do anterior regime: “O poder não dialoga, o poder decide”. É esta a cartilha pela qual se orienta o primeiro-ministro que temos? Ou desconhece o provérbio, ou rifão que nos diz “Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele”?
E acho que chega, por hoje.




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