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O aniversário do nascimento de Maria de Nazaré, mãe de Jesus

No universo cristão, e até entre muçulmanos, Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, é uma personalidade histórica da maior importância. Os cristãos reformados, vulgarmente designados de protestantes, reagem ao seu culto mormente por contraste com um certo devocionismo popular católico, frequentemente marcado por práticas populares politeístas. Disso é exemplo a veneração das imagens de Maria, confundidas com a própria Senhora. Às hierarquias cristãs cabe a responsabilidade do necessário esclarecimento sobre o lugar teológico de Maria.

Agostinho Domingues
7 Set 2013

Importa que os cristãos tenham ideias claras nomeadamente sobre as efemérides do culto mariano. Rareia cada vez mais a consciência  do significado de evocações como “Senhora da Purificação”, da “Assunção”, da “Natividade”, da “Imaculada Conceição”. Refiro-me hoje especificamente à Natividade ou aniversário natalício de Maria.
A importância de Maria de Nazaré é inversamente proporcional ao conjunto de dados biográficos marianos. Nos textos canónicos neotestamentários escasseiam as referências a Maria. Como que a colmatar esse vazio, os evangelhos apócrifos abundam em pormenores encarecedores da figura de Maria, embora carecidos de verosimilhança histórica na sua maioria. A textos como o “Evangelho de Maria” se deve, por exemplo, o excessivo encarecimento da virgindade da esposa do carpinteiro José.
Não podia a Igreja Católica deixar de escolher uma data para celebrar o aniversário natalício de Maria, à semelhança da evocação de grandes figuras da humanidade. Mas foi ainda mais longe: celebra a sua concepção a 8 de Dezembro, datando o nascimento de nove meses depois, isto é, a 8 de Setembro. Não deveria dar-se maior relevo à Natividade? Pelo menos quando o dia 8 de Setembro cai ao domingo, como acontece este ano, devia, a meu ver, privilegiar-se a evocação de Maria em detrimento da liturgia do domingo respectivo.
A Igreja prefere destacar a celebração da Imaculada Conceição, que permanece como “Dia Santo”. Muitos desconhecem que esta festividade tem a ver com a concepção (donde o termo vulgar “conceição”) de Maria, preservada da herança do pecado original; só indirectamente se poderá relacionar com a futura virgindade de Maria. Ultrapassada hoje a noção de pecado original, não deveria a Igreja privilegiar a Natividade em vez da Imaculada Conceição?. O padre doutor Anselmo Borges, eminente filósofo e teólogo, não hesita em afirmar: “No entanto, a doutrina do pecado original, no sentido estrito de um pecado transmitido e herdado, não se encontra na Bíblia. Jesus nunca se referiu a um pecado original” (Janela do (In)finito, 2008, p. 115). Desfazendo o equívoco teológico, engendrado por S.to Agostinho, seria de boa pedagogia concentrar no aniversário natalício de Maria o atributo de “cheia de graça”, ensinando que Maria foi dotada de uma natureza especial por ser destinada a ser mãe de Jesus de Nazaré.
Na celebração do aniversário natalício de Maria cabe perfeitamente a evocação do acto de concepção de Maria por Ana e Joaquim (pais de Maria, identificados nos evangelhos apócrifos). O nosso rei D. Duarte, no Leal Conselheiro, já professava, em pleno séc. XV, a crença no privilégio mariano de “isenta do pecado original”. Afirma ser essa a razão por que se celebra a concepção e não o nascimento, estabelecendo o contraste entre Maria e João Baptista: “por se fazer diferença entre ela e São João, ca dele se faz festa do nascimento, porque no ventre de sua madre foi santificado, e dela, por maior prerrogativa de seus parentes, da concepção (…). Porém direitamente dela se diz que foi sem maldade de pecado mortal, venial e original concebida” (Edição da Imprensa Nacional e Casa da Moeda, 1982, p. 176). É possível sermos fiéis à memória dos nossos antepassados, como o cristianíssimo rei D. Duarte, e, ao mesmo tempo, enunciarmos a doutrina cristã teologicamente actualizada.
Para terminar, recorro ao testemunho mariano dum outro rei peninsular, Afonso X de Leão e Castela (séc. XIII). Neste aniversário natalício de Maria (terá ela nascido cerca do ano 20 antes da era cristã), oiçamos do grande poeta Afonso X, avó do nosso rei  D. Dinis, a quem deve ter “transmitido”  os genes poéticos, uma bela cantiga trovadoresca. Reproduzo-a com aceitáveis actualizações do texto galego-português. Podemos lê-la como um hino de parabéns natalícios a Maria, mãe de Jesus.

Dized´, ai, trobadores, / a Senhor das senhores / por que a non lo[uv]ais? // Se vós trobar  sabedes, / a por quem Deus havedes, / por que a non lo[uv]ais?  // A Senhor que dá vida / e é de bem comprida, / por que a non lo[uv]ais? // A que nunca nos mente / e nossa coita sente, / por que a non lo[uv]ais? // A que é mais que boa / e por quem Deus perdoa, / por que a non lo[uv]ais? // A que nos dá conforto / na vida e na morte, / por que a non lo[uv]ais? // A que faz o que morre viva e nos socorre, / por que a non lo[uv]ais?




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