Fotografia:
Interesse público ou do público?

Continua muito válida e muitooportuna a pergunta: ao serviço
de quem devem estar os
Meios de Comunicação Social?
A resposta que normalmente surge
é a de que devem estar ao serviço
do interesse público. Devem
estar ao serviço de uma informação
cada vez mais completa, mais
isenta, mais verdadeira, mais objetiva
(no sentido em que é possível
sê-lo) a fim de manterem as
pessoas devidamente informadas,
contribuindo para a existência de
cidadãos cada vez mais conscientes
e mais livres.

Silva Araújo
5 Set 2013

Numa sociedade pluralista como
se pretende seja a nossa devem
ser instrumentos de diálogo, estando
abertos à livre troca de
opiniões.
É missão do jornalista colocar-
-se ao serviço do interesse público
e não do interesse do público.
Aquele do é de uma importância
fundamental. Estar ao serviço do
interesse do público é fazer-lhe a
vontade; é dar-lhe o que ele quer.
Servir o interesse público é dar ao
público o que na realidade deveria
querer. É ajudá-lo a descobrir que
não deveria querer o que quer. É,
se for o caso, contribuir para lhe
educar o gosto, para lhe apurar a
sensibilidade, lhe alterar hábitos
que devem ser alterados.
Quando um órgão de comunicação
social se coloca ao serviço de
um determinado público facilmente
se converte em instrumento de
propaganda.
Hoje a Comunicação Social vive
dominada pela conquista de audiências
porque isso dá dinheiro.
O que importa é dizer aos anunciantes
que a sua estação de televisão
é a mais vista; a sua estação
de rádio, a mais ouvida; o seu
jornal, o mais lido. E, se possível,
demonstrar isto por a+b.
As audiências atraem publicidade
– ao anunciante interessa enviar a
sua mensagem ao maior número
de destinatários e hipotéticos compradores
– e a publicidade dá dinheiro.
No fundo, é a inserção da
Comunicação Social na sociedade
de consumo, onde o que interessa
é criar novas necessidades
para vender mais e obter maiores
lucros.
Para conseguirem maiores audiências
pode acontecer de os Meios
de Comunicação Social cederem à
tentação de, em vez de se colocarem
ao serviço do interesse público,
se colocarem ao serviço do interesse
de determinado público. E
se esse público quiser conteúdos
de baixa qualidade…
A cada passo se ouve pessoas classificarem
de escandaloso, indecente
e inadmissível determinado filme,
determinado programa de televisão,
determinadas páginas de
um jornal ou de uma revista.
A verdade, porém, é que, se os
classificam assim, é porque os viram,
os ouviram, os leram. E se
os viram, ouviram ou leram deram-
lhes audiência. Se lhes deram
audiência, implicitamente disseram
ser aquilo que querem.
Indo ao sabor do interesse do público,
pode acontecer – e tem acontecido
– de haver Meios de Comunicação
Social que descem de nível,
enveredando pelo sensacionalismo
e pelo espetáculo, colocando
em plano secundário o que
de facto deveria ser a sua primeira
preocupação: servir o interesse
público; apresentar à comunidade
o que deve ser apresentado;
ter como grande finalidade prestar
um bom serviço ainda que de
imediato não conquistem com ele
grandes simpatias.
No fundo, realizar a sua missão
pedagógica: não satisfazendo
vontades que não devem ser satisfeitas
mas ajudando as pessoas
a saberem querer o que deveriam
querer.
Vivemos numa sociedade dominada
pelos interesses materiais. O que
conta é o dinheiro e é o dinheiro
que comanda tudo. Dinheiro que
procura cada vez mais dinheiro e
tem como grande objetivo o lucro,
servindo-se das pessoas em lugar
de as servir.
Na raiz de escândalos que por vezes
vêm a público não está o dinheiro?
A questão é complexa, porque
também os Meios de Comunicação
Social necessitam de dinheiro
para poderem subsistir. Vivem
dependentes da publicidade e dos
patrocinadores. Entre servir o interesse
público e desgostar o anunciante
ou o patrocinador pode acontecer
de se preferir não desgostar
o anunciante nem o patrocinador.
E daí surgem mantos de silêncio
que se colocam sobre diversos assuntos.
Daí surgem notícias e reportagens
que só interessam ao
poder do dinheiro.
Todos lucramos com a existência
de uma Comunicação Social cada
vez mais independente ou, se preferirem
e com mais realismo, menos
dependente.
E os diversos poderes – o económico
e não só – irão nisso?




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