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Setembro que sempre chega

Setembro chega sempre marchetadodo fascínio e mística
de mês de reencontros
e regressos; de estafadas e vazias
rentrées políticas em que já poucos
se reveem e creem e são os
membros ativos do sectarismo e
correligionarismo; de poentes ensanguentados
e oblíquos que refluem
na modorra de dias mais
curtos e noites mais longas a caminho
do equinócio de Outono
em que, no seu movimento anual
aparente, o Sol corta o equador
celeste fazendo o dia e a noite
de 21 de igual duração.

Dinis Salgado
4 Set 2013

Todavia, para quem não anda no
mundo por ver andar os outros,
nem tem os intestinos por cérebro,
o que dizer quer que não é
mandado nem manipulado e pela
própria, esclarecida e livre cabeça
pensa, sabe que este setembro
que na roda consequente e
vária do tempo nos chegou, pior
que os anteriores setembros se
apresenta, pois consigo arrasta
a angústia e o ferrete de um
presente sem sentido nem rumo
a profetizar um futuro incerto e
vazio, o que claramente define o
rosto das pessoas carregado de
sombras, lutos e medos; e um
fim de férias com o camartelo
do desemprego para milhares de
trabalhadores que, assim, caem
na inutilidade socioprofissional e
na pobreza que, como nódoa nigérrima,
alastra já no tecido familiar
e social do país; e resulta
do oportunismo, incompetência,
irresponsabilidade e demagogia
governativos dos últimos
tempos e do colapso das teorias
e práticas políticas dos políticos
que surdos são e, assim,
recusam o apelo do presidente da
República a um acordo de salvação
nacional.
Mormente, setembro que nos chegou
com eleições autárquicas que
um exercício de cidadania livre,
participativo e ativo do povo deviam
ser, mas transformadas estão
num festival de demagogia
e hipocrisia de muitos candidatos
que delas se servem para a
conquista do poder e a satisfação
de interesses próprios e de
clientelas tutelares; e tauxiado
de imagens, notícias e inconfidências
que, nas revistas corde-
rosa, nos chegam sobre as
férias milionárias de muitos portugueses
(políticos, banqueiros,
empresários, gestores, homens
do futebol), portugueses estes
que, se atacados pelo vírus da
generosidade, filantropia e amor
à Pátria que os viu nascer e os
fez crescer, podiam com algumas
migalhas dos seus proventos
ajudar ao desafogo económico-
financeiro do país; e nada
mais faziam do que serem solidários,
agradecidos e reconhecidos,
pois se chegaram profissional,
económico e socialmente
onde chegaram igualmente à
custa foi de muito suor e lágrimas
de concidadãos anónimos
e ignorados;
Mas, se da condição humana o
individualismo e o egoísmo, hoje,
marcas são de retrocesso, exploração
e ingratidão, dificilmente se
encontram homens destes, capazes
de pôr ao serviço dos outros
o poder dos seus talentos e proventos;
e, muito menos, a grandeza
de alma que sempre vê e
trata o semelhante como companheiro,
amigo, irmão; e apanágio
é de sociedades donde a exploração
do homem pelo homem, há
muito, postergada foi.
E, assim, é setembro que nos
chegou carregando inquietações
e dúvidas, frustrações e medos,
desilusões e desesperanças, incredulidades
e desconfianças nas
instituições e, sobretudo, nos homens
do poder e da política que,
ainda com desprimor e ironia, nos
passando a mão pelo pelo, chalaceando
vão:
– Toma lá que é democrático!
Então, até de hoje a oito.




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