Fotografia:
A ausência de um mentor radical na Filosofia de Keerkegaard

Entre os grandes mentores,condutores e revolucionários
do século XIX, evidencia-
se Soren Keerkegaard (1813).
A sua reação, como mentor, cultiva-
se no trigal verdejante dos indivíduos
concretos e cristãos.

Benjamim Araújo
4 Set 2013

Aqui,
o indivíduo, tomado como concreto,
pretende simular um grande
desdém e desinteresse pelas teorias
abstratas, que envolvem, garbosamente,
o homem que, afinal,
desafia, dia a dia, o seu rosário
de tormentos, de melancolias, de
dissoluções. O indivíduo, tomado
como cristão, é o que em delírio
de satisfação, procura encontrar,
por si mesmo, a sua plena realização
em Deus e em Cristo, o
Deus feito homem.
O indivíduo concreto, para alcançar
a sua plena realização, tem de
enfrentar, por si mesmo, em todas
as vertentes da sua existência (intelectual,
social e religiosa) uma
luta atroz e sem tréguas, contra
todas as suas dissoluções.
A vertente intelectual, assim pensa
Keerkegaard, afincadamente agarrada
aos seus prisioneiros sistemas,
necessidades e universalidades,
despoticamente sacrificadoras
da liberdade e da individualidade,
estimula o filósofo a destilar um
ódio carnal contra o idealismo e
contra o cientismo.
Para cimentar bem o seu ponto
de vista, diz o filósofo que a especulação
e as ciências positivas,
no que toca à pessoa humana, debilitam
a paixão do homem pela
ética e pela religiosidade.
A vertente social, relativamente à
massificação, isto é, ao povo convertido
em massa, é um perigo para
a pessoa humana. A pessoa, incautamente,
é levada ao exercício
de raciocínios errados, tais como:
“a massa é Deus, é verdade, é poder,
é honra.” A massa, afirma Soren,
não pensa e está nas mãos
dos poderosos.
A vertente religiosa, afirma o filósofo,
está dominada pela secularização
e o cristianismo tem pactuado
com o mundanismo. Assim o
cristianismo ainda não existe. Precisa
de um grande abanão.
Como solução para todas as ameaças,
o filósofo recorre à exigência
da interioridade, que se manifesta
através da “existência”, da “subjetividade”
e do “indivíduo”.
A existência é a maneira de ser
do homem plenamente realizado,
através da liberdade e decisão. A
subjetividade é a autorrealização da
existência, através da apropriação
da verdade. O indivíduo carateriza-
se pelas ações de autorrealização
e autoapropriação e pela resistência
à massa.
O grande problema de Soren é
este: – Como nos vamos tornar
indivíduo? Diz ele: – Para nos tornarmos
indivíduo temos de traçar
um caminho, o da interioridade,
que vai ser calcorreado pelo homem
no sentido da sua autorrealização.
Este caminho passa por
três formas de vida: a estética, a
ética e a religiosa. Na vida estética,
o homem vive alienado, fora de
si. Na vida ética, o homem cumpre
os seus deveres. Na vida religiosa,
o homem toma consciência
da sua relação pessoal com
Deus, frente a Deus.
A passagem de uma forma de vida
à outra, faz-se por saltos, através
do desespero e da angústia. No
fundo, a angústia está na experiência
do pecado. E o pecado é
rotura. Para se ser cristão é preciso
cruxificar o homem. A entrega
a Deus realiza-se na negação do
homem, afirma o filósofo.
Sem desvalorizar nem rejeitar o que
Keerkegaard afirmou, relativamente
à plena realização do indivíduo
concreto, que há algo que a realização
exige e a antecede e isso não
foi explicitado pelo filósofo.
O que antecede a realização e esta
exige é o conhecimento e a vivência
do humano na sua plenitude.
A plenitude implica três níveis de
conhecimento, de vivência e de
operatividade. Os níveis de conhecimento
estendem-se, respetivamente,
pelos campos existencial,
transcendental e transcendente. Conhecidos
estes níveis, a autorrealização
plena do indivíduo concretiza-
se, com a presença da sua autonomia,
liberdade e responsabilidade,
na integração e conexão da
sua existência com a sua natureza
ôntica e na sua sintonização com
os imperativos eternos do ser (o
bem, a verdade, a paz ).
O uno, coroa da nossa autêntica
natureza, proíbe as roturas, os saltos,
as exclusões, as desvalorizações.
Os tormentos e as melancolias
dissipam-se quando, através
da intuição, contemplamos a grandiosidade
da paz do nosso autêntico
ser, criado pelo poder, sabedoria
e amor de Deus.
Tudo isto me leva a afirmar que
a arquitetura do pensamento de
Keerkegaard, embora bela, tem
por alicerce as areias movediças




Notícias relacionadas


Scroll Up