Fotografia:
A culpa é do comprador

Em férias, mas sempre ligado aosassuntos do país, fui acompanhando
a alta política e também aquela
que procura, na mina da toupeira, aluir
o que não alcança escangalhar por cima.

Paulo Fafe
3 Set 2013

Da alta política ficou-me a ideia do papel
relevante de Cavaco Silva ao empossar
o governo refrescado de Passos Coelho
e ainda surpreendido, ou talvez nem
tanto, pelos bons índices económicos e
também pela sondagem que não confirma
o PS como vencedor destacado das
próximas eleições legislativas; não há memória
de haver um partido que tão pouco
proveito tire do desgaste político de
quem governa, nem retire dividendos políticos
significativos da situação de desagrado
social que as medidas restritivas
têm produzido sobre toda a população
portuguesa. A baixa política assemelhou-
se a tiro aos pombos; tais caçadores
furtivos à espera de atirar a matar,
em tudo o que mexe, sem que da carne
da rês se aproveite para alimentação.
Foram os tiros para matar a Maria Luís
Albuquerque enquanto secretária de Estado
e depois com tiroteio mais intenso
como ministra das Finanças, a respeito
das meias verdades, meias mentiras dos
swaps em que esteve envolvida; foram
os tiros a Pais Jorge enquanto vendedor
de produtos tóxicos ao estado português
(PPP e swaps); foram os tiros a Rui Machete,
enquanto favorecido (?) na compra
e venda de ações; foram embora mais
dois secretários de Estado, por razões
similares. Esta ligação dos mundos dos
negócios e dos negócios de Estado não
pode coexistir? Isto é, uma pessoa que
tenha exercido uma profissão no mundo
dos negócios, empresarial, industrial, comercial
ou serviços, não pode ser depois
membro do Governo só porque, enquanto
funcionário, tenha tido o maior empenho
para vender os produtos da empresa que
lhe pagava? Parece-me que tem havido
uma visão puritana sobre estas questões.
Se fosse um de nós, que vende serviços
ou produtos ao estado e o tivesse feito
com o melhor lucro para a empresa
que lhe pagava, cometia algum ilícito
ou desonestidade que o inibisse de
ser governo? Onde está o mal nisto?
Não pode, este mesmo bom funcionário
privado, vir a ser um bom ministro
ou secretário de Estado? Há aqui uma
visão de uma ética puritana que raia o
fundamentalismo. Qualquer dia não poderá
ser ministro da saúde quem já teve
sarampo em pequeno. Se alguém vendeu
ao Estado os seus produtos ou serviços
e estes se vieram a verificar lesivos
para o erário público, a culpa não está
em quem vendeu mas em quem comprou.
Quem comprou era tão ingénuo
que não calculava o risco do negócio?
Culpar quem vendeu não é um subterfúgio
para desculpabilizar quem comprou?
Culpar quem vendeu não é culpar
a cana em vez do cartuxo de pólvora
do foguete? Claro que gostaríamos
mais de ver no governo virgens praticando
a pureza. Mas todos temos um
passado e como ninguém o rasga ou
apaga, ou o compra, o que há a fazer
é procurar nesse passado experiência,
saber e sageza que abonem o desempenho.
Imaginemos que um treinador
de futebol estava proibido de treinar o
Benfica depois de ter treinado o Braga
porque haverá suspeitas sobre técnicas
e táticas, conhecimento sobre desempenhos
e performances de cada jogador,
segredos de direção, contratos e transferências!
Tem isto alguma semelhança
com os ministros visados? O paralelo é
prosaico mas parece-me que sim.




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