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S. Martinho do Porto – Uma conchinha de surpresas

Ano após ano, esta acolhedora praia não cessa de nos surpreender pela positiva. Não me estou a referir ao aspecto social, aos espaços físicos ou à paisagem, pois esta, como dizia o poeta, é um estado de alma…? o que me cativa neste “paraíso” é a vertente humana, é a riqueza da vida que pulula em todos, os que estão e os que chegam, é a simplicidade dumas férias entre família, onde todas as gerações interagem, partilham e disfrutam duns merecidos dias de convívio à beira mar. Sou tentada a afirmar que S. Martinho navega contra-corrente, tal é a lufada de esperança que, em ambiente altamente contagiante, se propaga um futuro melhor, mais risonho, mais ético, mais afectivo, sereno e feliz.

Maria Susana Mexia
30 Ago 2013

“Inverno demográfico” ali não há e nunca houve, as crianças triplicam de ano para ano, os seus risos, as brincadeiras e corridas enchem a praia e toda a marginal. Não são de estrangeiros, são portuguesinhos, acompanhados pelos irmãos, pelos pais e pelos avós, enfim, pela família natural e tradicional?.
Com muita alegria constatei também que os lugares de venda de livros, ali colocados na época estival, eram assiduamente frequentados por todas as gerações e muitos veraneantes empunhavam o seu livro de leitura, aproveitando a pausa laboral ou escolar, para cultivar o espírito, enriquecer o saber, ocupar a mente e conti-
nuar a aprender.
Salutar hábito ou presságio de um novo tempo, esta nova camada social que não perdeu a tradição de fomentar uma mente sã num corpo bronzeado?
Acompanhando o ritmo da estação, também a igreja paroquial adequa a Liturgia à azáfama da beira-mar, das esplanadas, das conversas, dos passeios e dos encontros entre amigos? Com Missa diária às 10h30, hora nobre para mães, avós e netos ali também não falta o alimento divino, pois nem só de praia vive o homem e ir de férias não implica deixar Deus em “sossego”, mas continuar a viver com a Sua companhia, a Sua presença, fomentando momentos de oração e de recolhimento.
E foi assim que, em dia de S. Tiago, 25 de Julho, a Igreja quase encheu de jovens para participarem na Santa Eucaristia. De comportamento exemplar, tocaram viola, cantaram, sorriram e contagiaram com a sua atitude, alegria e fé.
Na vida nada acontece por acaso, o bom e o mau são sempre o resultado do empenho e do esforço de alguns, poucos, talvez, mas são o suficiente para fazer a diferença, lançar o sal e o fermento, levedar uma massa imensa que precisa de quem a ajuda a crescer. Quem semeia ventos colhe tempestades diz o nosso povo, com a sua mestria popular e, bem sabemos, que só colhe com alegria quem semeou com muito trabalho e dedicação.
Esta força viva era oriunda da Paróquia do Montijo, estavam ali de férias na companhia de vários e atentos monitores e da, sempre sorridente, Irmã Filomena. Confesso que tive dificuldade em me concentrar, não conseguia tirar os olhos deste cenário tão belo e humano quanto divino…?
Recordei-me que, no século XVI, da Universidade de Sorbonne, em Paris, saiu num grupinho de ardentes estudantes, o fundador da Companhia de Jesus, Santo Inácio de Loyola companheiro, entre outros, de S. Francisco Xavier. Esta escassa meia dúzia de jovens, ainda que rodeados de dificuldades e contradições, remou contra a maré, inebriou-se dos valores religiosos e não parou de dar bom fruto ao longo destes séculos, o último dos quais está bem patente no Santo Padre Francisco.
A juventude é sempre a mesma, igual em todos os tempos e lugares, são “diamantes por lapidar”…?, o que escasseia nos nossos tempos são bons educadores, gente que com o seu exemplo e palavra a ajude a encontrar o caminho a seguir, que faça da sua vida um estado de missão em prol dos mais novos, que os ensine a voar mais alto com liberdade inteligente e inerente responsabilidade.
Somos descendentes do homo sapiens ethicus e é aqui que reside toda a diferença: liberdade não é fazer o que os instintos mandam, mas sim seguir a consciência, que para isso tem de estar bem formada e informada para nos apontar o dever, o caminho, a opção certa no sentido do bem que é comum a todos e nos transcende, pois na nossa essência habita a marca do Criador, essa centelha divina que nos convida a Crescer e a Amar.
Tudo se reflecte, tudo se propaga, uma maçã podre estraga um cesto, mas um ser humano bem estruturado e formado edifica uma sociedade? Atitudes corajosas e humanas, cidadania activa e participada tem de ser sempre uma constante da nossa vida. Não é um preconceito religioso, embora a Igreja Católica seja um exemplo vivo de como a caridade, o amor, a fraternidade e a partilha são a alavanca, o ponto de apoio para o homem se poder fazer mais humano, mais perfeito e ter a coragem de levantar voo rumo ao divino, a sua nobre origem e prometido destino.




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