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Negociações israelo-palestinianas

Em setembro de 2010, sob os auspícios dos Estados Unidos (EUA), começaram as negociações entre israelitas e palestinianos com vista à formação de um Estado palestiniano e deste modo trazer a paz para a região. A então secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, declarou, nessa altura, acreditar num acordo dentro de um ano para resolver as “questões difíceis”. Inicialmente a comunidade internacional reagiu com um certo otimismo a esta iniciativa dos EUA, mas depressa concluiu que mais uma vez as boas intenções ficavam pelo caminho.

Narciso Machado
28 Ago 2013

As duas partes alhearam-se do “Roteiro Internacional para a Paz” e do esforço mediado pelos EUA. Na semana passada, mais uma vez, sob os auspícios dos EUA, voltaram as negociações, depois de uma interrupção, em setembro de 2010, por causa da construção de colonatos no território ocupado. Porém, inadmissivelmente, o governo de Israel, três dias antes do início das negociações, anunciou a construção de 1200 novas habitações em colonatos, na Cisjordânia e em Jerusalém oriental, dificultando mais uma vez as negociações. De acordo com a Resolução 446 do Conselho de Segurança da ONU, adotada em 1979, a construção de colonatos nos territórios ocupados da Cisjordânia, Jerusalém oriental e Montes Golã (Síria) não tem valor legal no âmbito do direito internacional.
Nas suas reivindicações, os palestinianos exigem a retirada do exército judaico para as posições anteriores às ocupações de 1967, a destruição do muro, o fim do cerco de Gaza, o desmantelamento de todo o sistema de colonatos israe-litas, o reconhecimento do povo palestiniano a um Estado viável, livre e independente, com a capital em Jerusalém-Leste, lado a lado com o Estado de Israel.
A União Europeia (EU), muito mal representada para os negócios estrangeiros, poderia e deveria ter um papel importante a cumprir nesta caminhada pela busca da paz no Médio Oriente, mas pouco ou nada tem feito. Seria importante aumentar a sua cooperação com os países árabes, obtendo deles predisposição para o diálogo, com vista a ajudar israelitas e palestinianos a resolver a questão dos dois Estados. A situação no Médio Oriente dependerá também, no plano religioso, da colaboração entre cristãos, muçulmanos e judeus na promoção da paz, da justiça e dos valores espirituais e morais.    
A hostilidade entre muçulmanos e judeus não é uma inevitabilidade histórica, até porque em muitos aspetos, muçulmanos e judeus estão mais próximos do que dos cristãos. Como tal conviveram bem ao longo de séculos, como por exemplona Península Ibérica, em Istambul e nos Balcãs. O profundo antagonismo existe apenas desde o séc. XX, por causa do conflito israelo-palestiniano.
Uma solução para o conflito israelo-palestiniano só será possível com base num plano conclusivo e justo, que exija concessões de ambas as partes e que prometa ganhos para os dois lados. Pode acontecer que um número crescente de israelitas e palestinianos se aperceba de que têm sido enganados pela demagogia, quando os seus políticos lhes prometem a paz através de uma política de ”mão de ferro”, sem refletir no modo como a capacidade de sofrer dos oprimidos é a maior e mais persistente do que a dos opressores. O acordo relativamente ao problema da soberania sobre Jerusalém é, sem dúvida, um dos pontos das negociações mais difíceis de alcançar, em virtude de, através da história, ter sido uma cidade ocupada por judeus, cristãos e muçulmanos e ser considerada santa para as três religiões. Importa, pois, ultrapassar o estatuto mítico de Jerusalém para uma discussão racional sobre direitos e sobre a soberania. Dar a Jerusalém o estatuto de cidade internacional como, aliás, estabeleceu a ONU aquando da criação do Estado de Israel, seria o mais conveniente à comunidade mundial. Há quem, sensatamente, defenda para a Cidade Velha de Jerusalém (com relevo político e religioso) duas soberanias e duas bandeiras, mas uma única administração conjunta. Não é com manobras táticas que se chegará a resultado eficaz. O conflito israelo-palestiniano, as revoluções árabes (ainda indefinidas) e a tensão com a Turquia, por causa do ataque e morte de ativista da flotilha de ajuda humanitária a Gaza, podem lançar perigosamente Israel num isolamento contraproducente para se alcançar a paz na região.




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