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Uma (simples) questão de confiança

Portugal vive um dos momentos mais dramáticos da sua longa história. Não só pela trágica situação económica e financeira em que nos movemos, mas sobretudo pelo elevado grau de desconfiança que nos assola a todos – e que, nas crises por que já passamos ao longo dos tempos, nunca foi um fator tão determinante como o é na atualidade. Porque, na verdade, nos tempos que correm, em quem podemos confiar?

Victor Blanco de Vasconcellos
22 Ago 2013

Não confiamos nas instituições democráticas, porque estas desvirtuaram o seu espírito de serviço à sociedade;
Não confiamos nos tribunais, porque sentimos que a justiça não é aplicada “cegamente”, havendo uma espécie de justiça para os ricos (que os leva, por exemplo, a estar detidos no conforto do domicílio quando são apanhados em grandes falcatruas) e uma justiça para os pobres (que os coloca atrás das grades de uma cadeia quando são apanhados por pequenos furtos);
Não confiamos nos bancos, que beneficiam alguns (poucos) ricaços quando têm lucros eston-teantes, e prejudicam a generalidade dos mais pobres quando necessitam de ser “recapitalizados”;
Não confiamos nas leis, porque elas apresentam sempre um qualquer “buraco” por onde podem escapar os incumpridores, particularmente aqueles que têm poder económico para contratarem os melhores juristas e advogados nacionais e estrangeiros;
Não confiamos nos empresários, porque os empregos que oferecem são precários e mal remunerados, e muitas vezes enviam para o desemprego os trabalhadores qualificados para aceitarem outros com menores qualificações e, por conseguinte, mais dispostos a aceitarem vencimentos diminutos e horários incomportáveis;
Não confiamos nos mais idosos, porque consideramos que eles consomem o futuro dos mais jovens;
Não confiamos nos políticos, porque eles prometem o que raramente cumprem, e fazem leis que alteram a todo e a qualquer momento e por “dá cá aquela palha” (designadamente quando isso lhes traz proventos eleitorais ou “corporativos”);
Não confiamos nos desempregados porque temos a ideia de que nada fazem para enriquecer o país, como se fossem eles os culpados da situação em que se encontram;
Não confiamos na família, porque cada um dos seus membros vive agarrado a interesses pessoais, chegando a desprezar os seus elementos mais idosos, encerrando-os em lares sem as mínimas condições de “sobrevivência” e (quantas vezes!) sugando-lhes o parco dinheiro da reforma;
Não confiamos nos professores, não confiamos nos médicos, não confiamos nos enfermeiros, não confiamos nos jornalistas… – enfim: não confiamos em todos aqueles que julgamos possuidores de (supostos) “privilégios” que escapam à maioria dos portugueses!
Portugal vive um clima de falta de confiança. E enquanto não se mudar esta “mentalidade”, o país não andará para a frente. Disso não tenhamos dúvidas!




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