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Democracia: rótulo ou vida?

Uma coisa é a democracia e outra, a vivência democrática. Uma coisa é dizer–se democrata e outra, agir democraticamente. A democracia não é uma palavra de ordem que se atira para o ar nem um rótulo que se afixa, mas uma forma de ser e de estar em sociedade. A democracia é um estilo de vida. Tem por base o respeito de cada um por si mesmo, resultante da consciência que possui da sua dignidade de ser humano, e o respeito pelos outros, portadores de idêntica dignidade.

Silva Araújo
22 Ago 2013

A democracia é incompatível com a existência das chamadas leis de funil, com a aceção de pessoas, com o compadrio.
Para um democrata que o procura ser de verdade, os outros também existem e também têm direito a uma vida digna. Também têm direito ao seu bom nome e à sua boa fama, mesmo quando deixaram de fazer parte do número dos vivos.
É da essência da democracia o respeito pela liberdade. Liberdade que não é monopólio de alguns mas um direito de todos. Liberdade que não consiste em um indivíduo fazer o que lhe dá na real gana, agindo como se os outros não existissem ou não tivessem quaisquer direitos.
A verdadeira liberdade tem justos limites que é imperioso saber respeitar.
A justa liberdade de cada um termina quando principiam os justos direitos do outro.
Uma outra face da liberdade é a responsabilidade. E quem assume a responsabilidade pelos seus atos não necessita de aparecer nas manifestações de rosto tapado nem de aproveitar a escuridão da noite para escrever nas paredes ditos soezes ou insultuosos.
Liberdade e responsabilidade deverão ser como as duas páginas da mesma folha de papel. Se elimino a face da responsabilidade também destruo a da liberdade. Quem não assume a responsabilidade pelos seus atos não merece que respeitem a sua liberdade.
Às ideias de democracia e de liberdade está unida a de pluralismo.
A verdadeira democracia é incompatível com a sociedade do pensamento único.
Não existe verdadeira democracia sem respeito pelas liberdades de pensamento e de expressão desse mesmo pensamento. Mas estas liberdades não consistem no direito de insultar, de caluniar, de difamar.
O exercício das minhas liberdades de opinião e de expressão exige de mim o respeito pelas liberdades de opinião e de expressão dos outros. Eles também existem. Também pensam. Também têm direito a possuir e exprimir opiniões próprias.
Não se pode considerar verdadeiro democrata quem atua como se fosse o único ser pensante. Quem tudo faz, recorrendo a todos os métodos, para exigir que os outros aceitem, aprovem e aplaudam as suas opiniões.
As liberdades de opinião e de expressão reclamam o direito à diferença e o respeito por este mesmo direito. O outro não tem porque ser fotocópia ou clone de mim.
Quem defende as liberdades de opinião e de expressão como pode, coerentemente, defender o modelo de escola única, por exemplo?
O respeito pelo direito à diferença exige que cada um aceite os outros como eles são e saiba discordar dos que, por qualquer motivo ou em quaisquer circunstâncias, agem ou pensam de maneira diferente.
O respeito pelo direito à diferença exige que cada um saiba discordar dos que não cantam pela mesma partitura ou não lêem pela mesma cartilha.
Saber discordar é dizer francamente o que se pensa aceitando que outros pensem de maneira diferente e com eles convivendo.
Saber discordar é não fazer ghetos.
Saber discordar é saber dizer as coisas sem ofender nem magoar. É acreditar que o valor dos argumentos não está no tom de voz nem nos murros na mesa.
Saber discordar não é assustar quem pensa de maneira diferente.
Saber discordar não é fazer acusações sem fundamento e sem provas. Não é qualificar a pessoa em vez de, sendo caso disso, poder qualificar os atos de que se discorda.
Saber discordar não é chamar nomes ou insultar. Não é recorrer a métodos violentos para impor a sua opinião nem é amordaçar os que legitimamente têm e defendem uma opinião contrária.
Lamentavelmente, na sociedade em que vivemos há quem use a palavra democracia como simples autocolante, que em nada influi na sua maneira de agir. Pessoas que usam o chavão da democracia atuam como autênticos ditadores. Por isso, à sombra da «democracia» se diz o que se diz e se escreve o que se escreve.




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