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Um poeta da vida

Ele era uma área de conservação do meio ambiente onde uma reserva da vida natural cobria uma modesta colina que as gentes locais chamavam montanha, mas que, na realidade, era uma mera saliência topográfica, como todos nós somos na vida até que a erosão faça com que já não haja mais sombra de nós na aurora seguinte. A diferença é que ele não era um mero relevo nos arredores da vida pequena. Erguia-se bem no centro e quem o quisesse transpor, teria que o contornar, ou então, poderia optar sempre por um caminho pedestre que subia o monte e que serpenteava através dos bosques antes de desembocar num sítio que dava para o outro lado.

Jorge Leitão
21 Ago 2013

A pé, sim, ele não era fácil. Mas ao longo da subida havia fontes de água para matar a sede e espécies vegetais sempre com frutos diferentes em toda a época do ano para saciar a fome. Além disso havia imensos sítios onde descansar, meditar, escutar os pássaros e o resfolhar do vento sempre evolando histórias e memórias viventes.
Nunca se sentia incomodado pelo facto de já haver poucas colinas visíveis próximas da sua mas questionava-se acerca de quem teria batizado a colina tão pretensiosamente como monte “Chepa”. Suspeitava que teria sido um fidalgo morador num tal palácio dos “Rouqueiros” fundada há duzentos anos para os lados de Viana que usava fato de lã e colarinhos brancos. De qualquer modo, apesar das suas questões acerca do nome e da exatidão, em geral, do título honorífico do “monte”, ainda era um lugar que ele continuava a aceitar ao longo dos anos. Era um sítio tranquilo, muito amado pelos que proclamam a liberdade, que ali podiam se livrar das suas amarras, e onde ele podia também estar a sós com os seus pensamentos.
Ele era a essência do ser humano sem maquilhagem social. Não se protegia entre o vale e os campos quando estes ainda verdejavam em seu redor. Nunca viveu na superfície da existência. Era um poeta da vida. Vivia a vida como uma poesia. Como se o tempo não existisse. Como se a chama do amanhã se pudesse extinguir num sopro.
Assim, quando a sua luxuriante verdura e as suas fontes começavam a secar, já colinas de pedra invadiam os campos, canalizou toda a sua sageza e conhecimento ao serviço comunitário. Durante anos serviu a paróquia de S. José de Lázaro, praticamente todo o período de reforma dos CTT. A sua última fonte acabou de secar. Francisco Vidal faleceu recentemente num esgar de tempo. Faria este mês de agosto 96 anos.




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