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Marcel, um oásis no deserto do existencialismo

Como ponto de partida, não vou afirmar que Gabriel Marcel, filósofo francês (1883), tem de ser conotado como um existencialista, só pelo facto do seu pensamento incidir sobre a existência do indivíduo determinado, real, mundano. O indivíduo concreto, diz Marcel, é ele mesmo na vivência concreta e singular da sua existência. O ele mesmo é, no agora e no aqui, uma estrela cintilante de singularidades nas suas próprias observações, pensamentos, afetos, emoções e ações.

Benjamim Araújo
21 Ago 2013

Marcel, justifico eu, não é um existencialista, pois se o fosse, não deixaria de cair na tentação de agrilhoar o indivíduo com as cadeias, bem fortes e mordazes, da existência.
Toda a existência humana, singular e concreta, aprofunda os seus alicerces no granito da estrutura ontológica do seu ser. O indivíduo na sua existência singular, para se ilibar do apelido existencialista, não se deixa instrumentalizar, controlar e gerir, exclusivamente, pelos apetecíveis e estimulantes bens materiais. Pelo contrário, em todo o percurso da sua vida, tem de se conectar, integrar e sintonizar, abertamente, com o seu ser. Foi esta a sadia mentalidade que Marcel cultivou pelo roteiro do seu pensamento entre o ter e o ser. O ter significa tudo o que possuímos; o ser, os homens que nós somos.
O que seria, problematiza Marcel, da nossa vida quotidiana se estivesse de costas viradas para o ser? O que seria da nossa vida sem os fachos luminosos da fidelidade, liberdade, esperança e amor, que correm para a vida, pelas veias da energia vital, cuja fonte está no ser? A vida mergulharia na esterilidade e no caos, diz Marcel. Temos, necessariamente, de participar do ser, para que a vida existencial se torne bendita.
Diz Marcel que a nossa vida intelectual tem a sua origem na liberdade e que esta se define como uma das possibilidades de abertura à realidade e verdade do ser. Afirma, também, que o ser é absolutamente imanente à existência concreta e singular do indivíduo, mas supera tal existência. Marcel, com base na imanência do ser no indivíduo singular e concreto, integra a ética na metafísica.
Gabriel Marcel edificou, por entre os escombros do existencialismo, um magnífico e sumptuoso palácio, onde o indivíduo vive um bem abastado, maduro e, higienicamente, saudável. Um tapete aveludado de gramíneas estende-se a seus pés, circundando, também, um pomar vaidoso e fecundo de saudáveis e adultos pessegueiros. Estes, todos garbosos, toucados de flores, na primavera, fazem lacrimejar de maravilhas os olhos gulosos de quem por lá passa.
Acerca do ser, aqui relatado por Marcel, vou, à maneira de ajustamento, integrar uma ou outra explicitação, a fim de que uma forte saraivada e destemidos ventos não venham eventualmente arruinar as potencialidades frutíferas do pomar (o pensamento de Marcel).
Não vou ajustar, ao indivíduo concreto, o ser, em Marcel, ainda despido de explicitações. Não me parece que o insigne filósofo esteja com a atenção e reflexão apontadas, exclusivamente, para o ser existencial, que ele muito bem caraterizou. Creio, é o meu ponto de vista, que o ser a que se refere é imanente ao ser existencial, mas que o supera. Este ser, que o supera, é o ser ôntico e este é a nossa autêntica e concreta natureza. Esta é a minha primeira explicitação.
Gostaria que o filósofo tivesse também explicitado (se o fez, não tenho conhecimento), a estrutura metafísica do ser, como ser uno na sua constituição de matéria espiritualizada. Gostaria que explicitasse que este ser tem um projeto, como dádiva para o indivíduo existente, a fim de que, imperativamente, o cumpra. E que este projeto é a sua própria identidade, na qual o indivíduo concreto se tem de integrar e sintonizar. Está, aqui, a fonte da ética e de toda a paz do indivíduo nesta vida; está, aqui, a fonte saciável da ânsia de beleza, de luz, de felicidade e de repouso em Deus.
Este projeto é o escudo de proteção, oferecido pelo ser ôntico à vida existencial do indivíduo, a fim de enfrentar e amainar as tempestades descontroladas e fervilhantes das loucuras temporais da mente e do coração.
Por tudo o exposto, honras para Gabriel Marcel, filósofo incompreensivelmente pouco focado nos tratados e artigos sobre filosofia.




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