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Que festas “religiosas”… em tempos de crise?

É do mais elementar bom senso que se dê ao povo – essa entidade quase anónima, mas com uma personalidade colectiva muito bem definida – momentos de descontracção, de festa ou de (inteligente) manipulação… Na panóplia de festas e de festanças vamos vendo surgirem figuras e figurões, uns à sombra de santos e de heróis, outros sob a condição de habilidosos e de concorrentes… eleitorais (autárquicos e não só) e outros mais subtis na forma e no conteúdo… de contestação!

A. Sílvio Couto
19 Ago 2013

Mais do que falarmos sobre os gastos das festas – muitos deles ultrapassando a capacidade económica dos promotores, tanto na forma como no conteúdo – e do que tentarmos descortinar osreais objectivos das festanças com a “cobertura” de algum santo ou santa, interrogamo-nos sobre a visão de fé (ou a falta dela!) com que são realizadas certas festas “religiosas” (as aspas já querem dizer alguma coisa!), seja qual for a parte do país em que aconteçam ou que tenham a cobertura da matiz religiosa… Agora vivo ao sul do Tejo e o modelo básico de “festa” não difere muito do que era e é feito no Minho, onde nasci e fui educado! 

1. De facto, queremos questionar – sobretudo no âmbito sócio-eclesial – as intenções de algumas festas com algum patrocínio religioso e sob o alcance das temáticas cristãs… mais ou menos assumidas, toleradas ou manipuladas.
Nesta época do ano quase não há freguesia/paróquia/concelho/
/autarquia – a identificação começa a diluir-se ao nível administrativo, mas não no âmbito religioso – que não faça a sua festa… aproveitando o calor de Verão e as necessidades dos fregueses/votantes: até os santos/
/as se submetem aos interesses dos festejos… com Santa Luzia em Agosto e São Brás em Setembro… para já não falar da senhora da Conceição em Junho e do Santo António quando for mais rentável pela presença dos emigrantes!
De facto, o povo precisa de festa, os mordomos/as de promoção – sobretudo neste ano de eleições autárquicas e com outras misturas de interesses – as indústrias de pirotecnia de ajuda, os cantores e cançonetistas de palco, os feirantes de oportunidade de negócio… a Igreja de espaço para não cair no esquecimento… Tudo isto por entre arremedos de (pretensa) crise e/ou de arrufos recessão.. senão para todos ao menos para alguns mais lamentadores!

2. Há, no entanto, sinais de vida de fé e de expressão católica, que não podem ser negligenciados, se ainda tentarmos fazer de tais manifestações populares, oportunidades de vivermos para além dos episódios de circunstância. Daquilo que vimos, vivemos e sentimos, queremos propor:
– Que as procissões sejam belas, simples e bem organizadas… não podendo outras manifestações (políticas ou sindicais) serem melhores do que a honra, a veneração e o culto que prestamos aos santos, a Nossa Senhora ou a Jesus, seja qual for a época ou a circunstância… religiosa ou popular;
– Que mais do que o desfile de pessoas e de adereços (minimamente) religiosos não tenham falta de qualidade e de sentido de dignidade, tanto na forma como no conteúdo, para além da mensagem;
– Que haja clareza nos sinais de fé cristã, desde a cruz e a sua invocação comunitária até à presença solene, simples e sincera da Palavra de Deus – pelo sermão, reflexão adequada ou simples explicação dos santos e santas que integram o desfile/procissão – numa linguagem compreensível, humilde a atraente… sem panegíricos ou em agradecimentos dispensáveis… para dentro ou para fora do contexto eclesial.

3. Mesmo que em tempo (dito) de crise, as festas religiosas são úteis, necessárias e essenciais para que haja identidade social, nacional e cultural de tudo e para todos. Assim as façamos com sentido de fé… verdadeira!
Sobretudo em tempos de crise é que o povo precisa de se divertir, não para se alienar, mas para aliviar as agruras da vida e os sacrifícios que lhe estão adstritos. Assim, façamos das festas religiosas espaços de convívio e de partilha!
Sem perder de vista a necessidade de purificação de uns tantos ingredientes neo-pagãos, as festas religiosas são oportunidade de abertura à fé, assim todos estejam conscientes disso e o façam com dignidade… cultural!




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