Fotografia:
Maus-tratos a crianças

Na passada segunda-feira, a televisão mostrou imagens chocantes de maus-tratos físicos infligidos a crianças pelos próprios pais e que, devido a isso, tiveram de ser assistidas no hospital, onde as marcas de maus-tratos foram fotografadas. Algumas com um estado horrível de hematomas, nas nádegas e até na cara e nos olhos. A notícia do CM destacava ainda um aspecto que nos deve fazer pensar: “o número detectado de casos de agressões a crianças no primeiro semestre de 2013 está perto ou já ultrapassou o total de casos identificados em 2012”, sendo que o Hospital de Coimbra foi o que registou o número mais alto de casos (88), seguido pelo Hospital de S. João, no Porto e do Centro Hospitalar do Baixo Vouga, em Aveiro (58). Quer dizer que o aumento de casos de maus-tratos infligidos a crianças parece ter aumentado com o agravar da crise social.

M. Ribeiro Fernandes
18 Ago 2013

1. Mas, não é apenas o número de casos de maus-tratos que tem crescido, é também a gravidade desses maus-tratos. Dulce Rocha, vice-presidente do Instituto de Apoio à Criança IAC), refere que neste momento se constata “um tipo de maus-tratos mais agressivos, do qual já não havia notícia, agressões que podem causar graves lesões, inclusive em recém-nascidos, que têm um choro mais intenso ou mais continuado” e por isso são agredidos até se calarem já sem forças. Parece, pois, confirmar-se que o ambiente de stress provocado pela crise social e pelo desemprego aparece associado ao aumento (e agravamento) da violência de maus-tratos físicos infligidos a crianças, inclusive a recém-nascidos.

2. Já tinha sido constatado que, em momentos de crise, há um aumento de ansiedade, de irritabilidade e abaixamento do nível de tolerância. Dohoon Lee, professor adjunto de Sociologia na Universidade de Nova Iorque, já tinha escrito que “as dificuldades económicas que atingem uma família muitas vezes degradam o comportamento dos pais em relação aos filhos”, mesmo quando eles não são directamente afectados pela crise, mas apenas com receio de perderem os seus empregos.
Por outro lado, alguns investigadores constataram, segundo revela um artigo citado pelo jornal Sol, “que o aumento dos maus-tratos ocorria sobretudo nos casos de mulheres com uma determinada mutação genética que afecta a síntese da dopamina, uma substância química que desempenha um papel fundamental na regulação das emoções, do sono e da concentração”. Esta observação foi confirmada, no caso dos Estados Unidos, com um estudo que revelou que as mães sem aquela mutação não mostraram tantas alterações de comportamento durante a crise de 2007 a 2009. Demonstrou também que, quando a situação económica melhorou, diminuíram os comportamentos severos das mães com mutação genética.

3. Esta é uma constatação importante para se compreender melhor os comportamentos agressivos e o baixo limiar de frustração. Todos nós conhecemos casos assim de crianças e de adultos com um fraco limiar de controlo da agressividade, seja por fragilidade nervosa, seja por traumas psicológicos relacionais. Mas, esta eventual fragilidade não pode, de modo nenhum, servir como atenuante para atitudes tão radicais, com pais a agredirem os seus próprios filhos. O amor é tolerante, é compreensivo, é doce, é alegre e a paternidade e maternidade são, antes de mais, um acto de amor. Há, pois, aqui um grande trabalho de solidariedade social a fazer para que estas pessoas não se sintam sós face aos seus problemas. Quanto mais fechados sobre si mesmos, mais o sofrimento aumenta e se torna explosivo. A amizade pode ajudar a encontrar soluções para os problemas. Como há dias escrevi, a cultura do encontro pode ter um efeito estabilizador e socialmente comprometido.
Ser mãe e ser pai requer algo mais do que o impulso biológico natural; requer maturidade afectiva, evolução cultural e mesmo a procura de um sentido de vida para além da cultura. As organizações com vocação social têm aqui um amplo campo de acção.




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