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Um olhar em redor

Se é que o prezado leitor concorda, deixemos por agora (uma trégua) de fustigar quem nos fez resvalar por semelhante declive, podendo afirmar-se, sem exagero, que raras vezes o nosso país se afundou tanto no decurso da sua história. Procuremos, então, brindar-vos se possível com uma crónica diferente, a título de alívio, de conforto. Mas como?! Certo que ao meu dispor tenho a nossa Língua, opulenta, bela, rica em sinónimos e mesmo em substantivos, verbos e advérbios.

Joaquim Serafim Rodrigues
17 Ago 2013

Contudo, se não formos capazes de aproveitar convenientemente um tal instrumento de comunicação, extraindo dele o seu melhor som (fonética), utilizando-o como deve ser no tocante à forma (morfologia) e, por último, não sabendo ordenar as palavras colocando-as no local próprio dentro das respectivas frases (sintaxe) é o mesmo que, por assim dizer, dispormos de um “Stradivarius”, propício aos sons musicais mais agradáveis, suaves e harmoniosos (o canto de um rouxinol, por exemplo), e não conseguirmos tirar dele, através do arco pousado sobre as suas quatro cordas, senão a meia dúzia de notas sincopadas de uma dessas canções que por aí proliferam agora na televisão, com duas ou três moças meio despidas contorcendo-se por trás do cantor, ou cantora, cuja voz, se é que a tem, se perde igualmente no meio das batidas atroadoras do conjunto musical!
Claro que, a meu ver, não será descabida esta comparação, ou analogia, visto ser necessário imprimir àquilo que se escreve uma certa “força”, tornando a prosa “viva” como quando se fala, um certo “andamento”, também, ou “desenvolvimento”, tal qual uma partitura bem estruturada, sem notas dissonantes, ásperas, que firam os nossos ouvidos, a nossa sensibilidade. Aqui chegados, outro problema se depara: e quanto à matéria propriamente dita, aos assuntos a versar?
Pois é, caro leitor. Eles não faltam, lá isso não, neste país eternamente adiado, suspenso dos “Big Brother” e de outros que a seu tempo virão e onde entre os respectivos concorrentes parece valer tudo, ou quase. E são assim, de um modo geral, os programas que as nossas televisões nos oferecem, competindo entre si na vulgaridade dos mesmos, desde “O preço certo”, “Bem-vindos a Beirais”, “A tarde é sua” ou, para não aprofundar mais esta apagada e vil tristeza, “Não há bela sem João”, perdendo-se aqui, quanto a mim, um belíssimo actor.
Porém, estes programas e outros que tais fazem as delícias do nosso povo, inundando os canais televisivos, figurando os seus intérpretes em capas de revistas, mobilizando jornalistas que lhes seguem os passos, os entrevistam e fotografam, bebendo-lhes as banalidades proferidas, senão mesmo as boçalidades, transformados em ídolos pelos media, responsáveis por este abastardamento de costumes, por esta ausência de noção do ridículo, o que também não admira, visto que lhes escapa por vezes, a estes últimos, a essência das coisas, o nome das próprias coisas!
Um autêntico absurdo culmina, por fim, este desolador panorama: num país à beira da falência económica, sujeito aos ditames de uma troika que nos asfixia a todos, embora de um modo não proporcional (longe disso), a maioria dessas televisões, através desses programas intragáveis, permite-se oferecer dinheiro a rodos, milhares e milhares de euros todos os dias, a um qualquer espectador que tenha a sorte de ser escolhido mediante um simples telefonema. Ou seja, Portugal, endividado, converte-se assim num imenso casino!
Limitar-me-ei, constrangido, a reconhecer que na hora da prestação de contas, os responsáveis ou lavam as mãos como Pilatos ou vestem, muito candidamente, tal como os magistrados romanos, a túnica da brancura. Sempre assim foi…




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