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Sartre e o falhanço do seu humanismo existencialista

Procurei Sartre (1905), por aqui, por ali e por acolá e fui encontrá-lo no dormitório com o nome de existencialismo. Lá encontrei, também, Heidegger, Jaspers e Gabriel Marcel, cada um à sua maneira, no pastoreio dos seus sonhos e projetos. Sartre, escritor e filósofo, tinha colado, sobre a cabeceira da cama, este dístico, escrito em letras de ouro: “Faz-te Deus através da tua liberdade e ação.” De um modo geral, o seu existencialismo ardiloso, para captar mentes incautas e favorecer a construção de raciocínios errados, espalha-se por uma rede, tecida com estes resistentes fios: realidade, existência, essência, liberdade, escolha, determinação, responsabilidade e ação.

Benjamim Araújo
14 Ago 2013

Para que o desenrolar do novelo da manifestação desta sua doutrina seja clara, distinta e, tanto quanto possível, sintética, vou começar pela sua conceção de existencialismo.
Para Sartre, existencialismo é aquela doutrina que, garbosamente, declara que a existência precede a essência, no sentido de que o homem, em primeiro lugar, existe, isto é, o homem está no mundo e só depois é que se define naquilo que é e quer ser. O existencialismo, insiste Sartre, nada mais é, mesmo que Deus existisse, do que o esforço, que o homem deve investir para se encontrar a si mesmo.
A única realidade, declara Sartre, é a existência e a existência é aquilo que está no mundo. Debruçado sobre esta realidade, outra não vê senão a realidade humana e a infra-humana. Para Sartre, a realidade humana é o ser para si. A realidade infra-humana é o ser em si.
A realidade humana é consciente, aberta e livre e está em constante evolução. Esta rea-
lidade é a que se autorrealiza. É a realidade que ainda não é, mas vem a ser. Esta realidade é a essência.
No plano da realidade humana, o homem, ao percorrer a sua via-sacra a caminho da plenitude, isto é, a caminho de se tornar em Deus, evidencia três níveis de existência. No princípio (o primeiro nível), o homem não é nada. É um vazio interior, é carência, é um fracasso.
No segundo nível, o ser para si é um ser para o outro com todas as suas responsabilidades.
No terceiro nível, o ser para si decreta alcançar a sua plenitude. Deseja ser homem e o homem deseja tornar-se Deus. O tornar-se Deus, afirma Sartre, é uma paixão inútil, é um fracasso. O homem é um fracasso.
Não vejo com bons olhos esta afirmação de Sartre: “o homem é, unicamente, uma realidade existencial.” O homem, creio eu, é uma realidade global. Esta realidade incentiva a pessoa a aceitar, com toda a força da consciência, que há uma outra realidade no homem. É a realidade que supera a existencial, sem contudo a rejeitar ou desvalorizar. Esta realidade, desconhecida de Sartre, é a autêntica natureza plena em riquezas de vida, paz, sabedoria, amor… A natureza, na sua intimidade profunda, é o ser que tem em suas mãos um projeto para que o ser para si se realize. Este projeto intima o ser para si a auto-evoluir em autonomia, liberdade, ação e responsabilidade. Esta evolução conduz para a plenitude da essência do seu ser humano e para a semelhança com Deus.
A realidade infra-humana é, segundo Sartre, o ser em si. Esta realidade é o que é. É inconsciente. É a res extensa de Descartes. É o corpo. É a realidade acabada e nada lhe falta. É fechada em si mesma.
Ao investigar a realidade humana, encontrei, no seu âmago, uma realidade acabada, uma realidade que nada lhe falta e se abre ao ser para si, à realidade infra-humana e a Deus. Encontrei lá a natureza autêntica, homónima da realidade a que Sartre denomina de “em si”.
Ao afirmar que o homem está condenado a ser livre, que tem de assumir e agir em liberdade absoluta, sem transferir para ninguém a sua responsabilidade e que é na ação que reside a sua esperança, Sartre, com umas certas reservas, tem a minha adesão, envolvida num enrolado abraço de satisfação.




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