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O Papa Francisco e o povo muçulmano

O Diário do Minho, na sua edição de 3.8.2013, citando a Rádio do Vaticano, informava que o Papa Francisco, por ocasião do fim do Ramadão (8 e 9 de agosto), escreveu uma carta às comunidades muçulmanas espalhas pelo mundo, onde saudava todos quantos iam participar na festa do “Id al-Firtr”, depois de um mês dedicado principalmente ao “jejum, à oração e à esmola”. O Papa Francisco destaca a importância da criação de um ambiente de “respeito mútuo entre cristãos e muçulmanos” que implique “a realização do Outro, os seus ensinamentos, símbolos e valores, e em particular, os lugares de culto”, lamentando a “dor que tem causado os ataques entre as duas partes”.

Narciso Machado
14 Ago 2013

O Papa termina a carta desafiando cristãos e muçulmanos a serem exemplos de diálogo e cooperação e garantindo ao mesmo tempo a sua oração “para todo o povo islâmico”.
Do teor da carta resulta que o Papa Francisco pretende seguir e aprofundar o caminho aberto pelos anteriores Papas, João Paulo II e Bento XVI, que, entre outras iniciativas, reuniram com representantes de diferentes confissões com o objetivo principal de mostrar ao mundo que as religiões não são sistematicamente fatores de guerra, podendo contribuir decididamente para a paz.
Numa ocasião em que se fala numa “Revolução Árabe”, a carta de Papa Francisco poderá ajudar a criar as amplas liberdades pelas quais o povo muçulmano luta, esperando-se também com a ajuda da comunidade internacional. Por isso, também a União Europeia tem um papel importante a cumprir nesta caminhada para a paz no Médio Oriente, aumentando a sua cooperação com os países árabes, obtendo deles predisposição para o diálogo intercultural.
À semelhança do que fiz relativamente a Bento XVI, também ofereci, ao Papa Francisco, por ocasião da sua eleição, dois livros: “Diálogo entre Judaismo, Cristianismo e Islamismo” e “900 anos do Nascimento de D. Afonso Henriques”. O primeiro livro foi escrito na sequência dos atentados terroristas de 1 de Setembro de 2001, às torres gémeas do Word Trade Center, em Nova Iorque, causando cerca de 3000 mortos, bem como na sequência do atentado em 11 de Março de 2005, ocorrido na Estação de Atocha, em Madrid, causando 191 mortos e 1500 feridos. O segundo livro foi escrito para provar que Guimarães é berço do Rei Fundador de Portugal. A oferta deste livro pretende ser o reconhecimento à Cúria Romana pelo facto de, em 1179, o Papa Alexandre III, através da Bula “Manifestum provatum”, ter reconhecido, finalmente, o Reino de Portugal e a dignidade de D. Afonso Henriques.
O Papa Francisco respondeu, através do seu assessor, Mons. Peter B. Welles, enviando a sua fotografia e dizendo que o Papa “acolheu este sinal de estima e unidade que agradece e retribui”, “pedindo a oração de todos e da cada um pela sua pessoa”.
Neste momento, em vez de erguer barreiras de ódio e de vingança, importa estabelecer pontes de diálogo, numa atitude de aproximação e de compreensão. São conhecidas as limitações da liberdade religiosa existente em alguns países árabes, onde se encontra dificultado o culto às minorias cristãs, enquanto nos países da União Europeia existe total liberdade de religião e de culto.
Nas viagens que fiz aos países árabes (Marrocos, Tunísia, Egito, Jordânia, Síria) e Turquia com o objetivo de obter um justo conhecimento do Islão e do povo muçulmano, no seu presente e na sua história, pude testemunhar a profunda religiosidade do povo islâmico, nada tendo a ver com o chamado “Islão político” e “extremismo islâmico”. De todos estes países, quero salientar a Síria, pela existência de um enorme legado cultural cristão, a começar pelas primitivas comunidades cristãs, reportadas ao tempo de S. Paulo (Paulo de Tarso). Por exemplo, em Damasco (capital), na parte velha da cidade, pode ver-se a denominada capela de Ananias, que constitui uma referência ao lugar em que, segundo os Atos dos Apóstolos (9,1-12), vivia o discípulo de Jesus que fez recuperar a vista de S. Paulo. Ou a capela de S. Paulo, outro lugar ligado à sua figura. O edifício dessa capela foi erigido no lugar que, segundo a tradição popular,
S. Paulo conseguiu evitar a sua captura, descendo por uma janela, num cesto, episódio narrado na 2.ª carta de S. Paulo aos Coríntios (11,13). Os pontos de contacto entre as duas religiões podem ser bons motivos para o diálogo, importando procurar convergências, respeitar diferenças, ate-
nuar divergências, na linha do pensamento do Concílio Vaticano II, pois, como bem refere Hans Kung, “não há paz entre as nações sem paz entre as religiões”.




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