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Onde mora o interesse do país?

Em breve pausa de férias, quando o tempo parece fluir mais lentamente, há mais disponibilidade para olhar o mundo e pensar no que os sentidos nos permitem apreender. É nesta situação que encadeio as palavras que darão corpo a esta reflexão e confesso que me sinto enfadado pelos temas que vão preenchendo boa parte das notícias do país. Ainda há pouco saídos de uma crise política que poderia ter posto em causa os sacrifícios a que os portugueses têm sido sujeitos nos últimos dois anos e já outros temas pretendem incendiar o clima de tranquilidade de que Portugal precisa.

J.M. Gonçalves de Oliveira
13 Ago 2013

O que temos observado nas últimas semanas é desprestigiante para a classe política e é suscetível de arruinar ainda mais a credibilidade das instituições democráticas.
Não é verdade que boa parte dos noticiários têm sido preenchidos com acusações e contra-acusações sobre personalidades envolvidas ou com responsabilidade em contratos “swaps”, efetuados ou oferecidos a empresas públicas, ou mesmo evocados pelo próprio Estado, num passado não muito distante? Não é verdade que por esta razão as relações entre os dois maiores partidos portugueses, PSD e PS, se voltaram a azedar com imputações recíprocas de falta de ética?
Ao Governo legitimamente investido compete gerir os destinos do país e à Oposição dar o seu contributo, mostrando as suas opções, sabendo esperar pelo veredicto do povo na altura própria das eleições.
Na antevéspera de acontecimentos marcantes para a vida do povo português, como a elaboração do Orçamento do Estado para 2014 e as próximas avaliações da “troika”, não seria expectável ver todos os responsáveis políticos mais interessados em discutir estes assuntos? Afinal, onde mora o interesse do país?
 Estou certo que a balbúrdia da polémica instalada em nada engrandece os seus autores e, principalmente, descredibiliza genericamente o regime democrático. Não rejeito a necessidade de escrutinar o perfil de quem nos governa, mas, no contexto presente, tudo fazer para humilhar e ofender a qualquer preço tornará a disputa em verdadeiro lodaçal e não visa senão fragilizar o Governo.
Numa entrevista à revista “Visão” da última semana, Rui Rio, o carismático presidente da Câmara Municipal do Porto, refere que “estamos a viver a agonia do regime”.
O ilustre autarca da Cidade Invicta já nos habituou à frontalidade e à clareza com que apresenta as suas ideias. Ao longo da explanação do seu pensamento refere a necessidade de reformar o regime para reganhar governabilidade e credibilidade, acrescentando a urgência em encetar mudanças que o expurguem das teias do centralismo, vendo a regionalização como um meio de fazer o que pode ser feito à escala local e referindo ser importante mexer nas leis eleitorais.
Não comungo a contundência de Rui Rio na afirmação que proferiu – apesar de tudo acredito que o atual regime não se encontra na antecâmara da morte – mas não deixo de concordar com o seu diagnóstico e com a necessidade de lhe introduzir as mudanças que o revitalizem.
Elevar a discussão política e fazê–la regressar ao conceito de ciência da verdadeira governação poderá ser o primeiro passo para a tornar credível aos olhos do comum cidadão. Centralizar os debates no que realmente é relevante para o país e capaz de atrair o interesse do povo, será outra maneira de combater o progressivo alheamento com que largas franjas da população olham a política. Tudo isto deve acontecer, a par de uma profunda alteração do comportamento de alguns políticos, sobretudo que sejam capazes de evitar linguagem aviltante, nunca esquecendo que no grande auditório do país estão, entre muitos outros, jovens e crianças.
O povo desde há milénios aprecia pão e circo, porém na hora exata identifica quem o tenta enganar.




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