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O abraço do monstro

No princípio era o monstro e o monstro era a dívida. Digo assim para simplificar. Ultimamente, tem-se falado pouco nele, mas está muito activo. Pesado, enorme, voraz, não poupa nada nem ninguém. Suga e abafa qualquer alma que respire. O bicho cresceu, primeiro, pelo regabofe, depois, pela austeridade. O monstro de que falava o Presidente aqui há uns anos atrás, todos se lembram certamente, continua a crescer, a devorar o melhor do nosso património. Agora, devora pessoas, os seus valores, os seus anseios. E pode até devorar países, como Portugal.

Luís Martins
13 Ago 2013

Com pessoas lá dentro e tudo. Mas a culpa não é só do monstro, mas também de quem o comanda. Apesar do crime hediondo que é fazer isso, há manifestações e evidências que nos levam a pensar que existe uma vontade deliberada de nos darem ao dito-cujo. Pelo menos, de nos colocarem ao alcance das suas garras potentes. Atenção, isto não é um filme de ficção. Isto é mesmo realidade.
Seja como for, a ameaça do monstro é permanente e crescente. É justo perguntar a quem é que obedece. Não é difícil a resposta. Tem-se alimentado das necessidades do Estado, é certo, mas também de grandes tubarões da economia e dos negócios. E das manigâncias de políticos que desrespeitam o que é público em proveito do que não é. Se fossem tidos em conta os interesses dos portugueses anónimos, certamente que o monstro não tinha crescido tanto. Nem para lá caminharia. Antes, crescia, mas as pessoas aproveitavam. Agora, o bicho engorda ainda mais e as pessoas são apenas chamadas a alimentá-lo. E mesmo assim, está a destruir todas as estruturas.
O monstro que antes era olhado com preocupação, está hoje mais agressivo. Muito mais pujante. Bem vistas as coisas, estamos a fazer mensalmente mais sacrifícios, alguns viram as suas vidas destruir-se, os seus sonhos, os seus objectivos a serem adiados e apesar disso o monstro ganhou dimensão e poder. Poder que nos foi retirado. O que tem a mais saiu de nós. Temo que vá continuar a amachucar-nos, a agarrar-nos, não pela mão, como faz um pai ou uma mãe a um filho, mas pelo pescoço.
Aliás, o bicho está a amarrar o território inteiro, sem fazer distinção. Não interessa se estamos a norte ou a sul, se vivemos no interior ou temos melhor acesso à costa. Não faz distinções. Se há evidência que produz é nivelar todos por baixo, sufocando a classe média e esmifrando classes mais humildes da sociedade portuguesa.
O monstro está a abraçar o país e a sufocá-lo. Em Março, de acordo com o Banco de Portugal, a dívida pública já era superior a 127% do PIB, ou seja, um pedaço mais do que toda a riqueza produzida no país num ano. Mas a dívida directa do Estado chegou, já em Junho, aos 206.648 milhões de euros, o que faz elevar ainda mais aquele indicador. E dizem que vamos conseguir pagá-la? Com a austeridade em vigor e a que aí vem, só se nos for perdoada uma boa parte dela.
Mas, o monstro já não é só um bicho medonho. É um sistema ultra-liberal que a poucos entusiasma e que não serve os interesses do povo. É, em certo sentido, uma ditadura de alguns poucos que ludibriaram milhões e os têm agora subjugados pelos impostos e pela instituição de valores que são contrários à cultura da maioria, servindo apenas para pacificar minorias, como é o caso das medidas ditas fracturantes.
O monstro que nos impinge sofrimento e nos prende os movimentos está insaciável. Não nos distraiamos. A hipotética abertura a algum alívio, dito por palavras solenes e não nos gestos, deve deixar-nos desconfiados. A estratégia pode bem ser descuidar-nos para nos apertar de seguida o gorgomilo com mais força e acabar por estrangular-nos. O abraço do monstro é cobarde, dissimulado e traidor. Como não consegue abraçar a Constituição – a nossa única reserva – o monstro abraça o país na esperança que aquela deixe de vigorar.
Fico-me hoje por aqui na esperança de que os caros leitores estejam atentos. Já agora, boas férias.




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