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A privacidade e a falta dela

As questões suscitadas pelo caso Edward Snowden, que, em Junho, denunciou o programa de vigilância secreto dos serviços de segurança dos Estados Unidos da América, que acedem directamente aos servidores de nove empresas tecnológicas (AOL, Apple, Facebook, Google, Microsoft, PalTalk, Skype, Yahoo e You Tube) para vigiar os utilizadores da Internet, continuam a tomar conta das primeiras páginas dos principais diários internacionais, particularmente dos franceses.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
11 Ago 2013

O problema mais controverso é o da privacidade na Internet ou o da sua impossibilidade. “Conectados e vigiados”, afirmava, na terça-feira, o principal título da primeira página do La Croix. No dia anterior, o Libération tinha apresentado uma manchete ainda mais contundente: “Todos policiados”.

O jornal, que dedicava ao tema um destaque de quatro páginas, incluía um editorial que citava o Discurso sobre a servidão voluntária, de Etienne de La Boétie, filósofo francês do séc. XVI, para retratar o que agora se passa: “Coisa verdadeiramente surpreendente – e, no entanto, tão comum que devemos mais gemer do que surpreender-nos – é ver um milhão de homens miseravelmente submissos, a cabeça sob o jugo, não porque a ele estejam constrangidos por uma força maior, mas porque estão por ele fascinados e, por assim dizer, enfeitiçados”.

Também o Le Monde, que muito tem escrito sobre os que exercem a vigilância, se referia, há dias, aos que consentem a vigilância, reparando no que designa por “paradoxo da vida privada”. Os internautas, regista o jornal, navegam em paradoxos. Um deles verifica-se quando os internautas, por um lado, se inquietam com a vigilância dos dados pessoais e, por outro, não se coíbem de se expor cada vez mais. Esta exibição corresponde a uma tendência de fundo, diz o diário parisiense, citando a revistaTime, que recentemente dedicou a capa à geração “eu, eu, eu”, caracterizada pelas pulsões narcisistas que se multiplicam nas redes sociais.

A privacidade ou, melhor, a sua inexistência foi também tratada por Mario Vargas Llosa num texto publicado no diário espanhol El País, em 14 de Julho, a propósito do caso Edward Snowden. Sobre os es-
piões, o escritor garante que o que eles fazem, desde que existem, é violar a intimidade dos cidadãos dos seus próprios países e dos alheios. E olhando para o mundo dos media, Vargas Llosa chega a outra conclusão: o direito à privacidade já desapareceu, há algum tempo, no mundo em que vivemos. “Arrasaram-no, antes dos espiões, a imprensa cor-de-rosa e as revistas do coração, a ferocidade dos debates políticos que, no seu afã de aniquilar o adversário, não vacila em expor à vista de todos as intimidades mais secretas; e a avidez do público por irromper no âmbito do privado para saciar a sua curiosidade com segredos de cama, escândalos de família, relações perigosas, intrigas, vícios, tudo aquilo que antigamente parecia vedado à exposição pública”.

Hoje, acrescenta o escritor, “a fronteira entre o privado e o público eclipsou-se e, ainda que existam leis que na aparência protegem a privacidade, poucas pessoas acorrem aos tribunais para a reclamar, porque sabem que as possibilidades de que os juízes lhes dêem razão são escassas. Deste modo, ainda que por inércia continuemos a utilizar a palavra escândalo, a realidade esvaziou-a do seu conteúdo tradicional e da censura moral que implicava, passando a ser sinónimo de entretenimento legítimo”.

Mario Vargas Llosa julga, por isso, que Edward Snowden não pode ser considerado um “herói da liberdade”. A subavaliação é assaz injusta, mas não será totalmente abusivo considerar que, de certo modo, os espiões se assemelham às donas de casa, aos afáveis profissionais e aos burocratas, que violam diariamente a privacidade dos cidadãos, lendo as revistas, escutando ou vendo na rádio e na televisão os programas destinados especificamente a violá-la – a grande diversão mediática do nosso tempo.




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