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“Meditação” sobre o cabo da vassoura

Há dias, ao retirar da estante as famosas “Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift, para emprestar ao filho de um amigo, saltou-me repentinamente para as mãos o volume “Uma modesta proposta e outras palavras satíricas”, daquele autor irlandês (1667-1745). Confesso que já não me recordava de ter adquirido, e lido com enorme agrado, há cerca de três lustros, aquelas magníficas narrativas satíricas. O volume ficou “escondido” entre o “Gulliver” e “A batalha dos livros”, uma outra sátira escrita por Swift, em 1704.

Victor Blanco de Vasconcellos
8 Ago 2013

Ora, esta repentina “reaparição” da obra proporcionou-me a releitura, de novo saborosa, daquele livro, e muito particularmente do “capítulo” intitulado “Meditação sobre um cabo de vassoura”, que (recordo-o bem) já me deleitara há dezena e meia de anos.
E de que fala essa “Meditação”? – perguntará talvez o leitor, intrigado pela estranheza do título.
Antes de mais, convém salientar que, sem deixar de ser uma sátira, esta narrativa é sobretudo um alegoria “moralista”, estabelecendo uma interessante e inusitada analogia entre a vida do homem e um cabo de vassoura (que no tempo de Swift, frise-se, mais não era do que um ramo de árvore ou de arbustos virados ao contrário…).
Para que o leitor faça uma pequena ideia do teor desta “Meditação”, aqui transcrevo uma pequena migalha da abertura:
“Esse cabo que você contempla agora naquele canto, já o vi florescente numa floresta: ele estava cheio de seiva, cheio de folhas, e cheio de ramos; mas, agora, em vão tenta a ocupada arte humana porfiar com a natureza, amarrando esse seco feixe de gravetos ao seu tronco sem seiva: agora ele é, quando muito, nada mais que o reverso daquilo que já foi, uma árvore posta ao contrário, os ramos no chão, e a raiz no ar; (…) depois de um largo período, reduzido a um toco pelo serviço das empregadas, ele é ou jogado fora, ou condenado a um último uso, avivando alguma chama. Quando contemplei tal coisa, suspirei, e disse para mim mesmo: certamente o homem é como um Cabo de Vassoura!”.
O que Swift pretende dizer com esta narrativa, entre outras “leituras”, é que o ser humano chega a uma idade (a velhice) em que se transforma numa espécie de “cabo de vassoura”, um ramo que já foi verde e erguido para as alturas, mas que acaba virado ao contrário, até ficar num toco ressequido, inútil, e, por isso, lançado ao lixo ou à fogueira…
Ora, não será isto o que nos dizem as notícias diárias, que lemos na maioria dos jornais e vemos nos canais televisivos, sempre que se fala dos idosos? Só falta mesmo dizerem-nos que os velhinhos não passam de “cabos de vassoura” que já nem servem para limpar o lixo, porque eles próprios passaram a ser… lixo!




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