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A pulga e o elefante

Contava Mons. Américo Ferreira Alves que, quando se fez o Campo-Escola dos Escuteiros, em Fraião, resolveram plantar lá uns carvalhos. Encomendados no Gerês, vieram para Braga pela então Viação Auto-Motora. Fazia falta levá-los das instalações desta Empresa, então no que é hoje o Shopping Santa Cruz, se me não engano, para Fraião. Foram solicitados, para tal, os serviços de um chefe de escuteiros, cujo nome propositadamente não revelo. Este, imaginando o grande porte dos carvalhos, idealizou a forma de os transportar. Contactou, de imediato, um dos proprietários de uma empresa de transportes, cujo nome não importa, solicitando-lhe a cedência de um camião com o respetivo motorista, assim como dois carrijões.

Silva Araújo
8 Ago 2013

Combinado o trabalho, à hora aprazada aparecem junto da Auto-Motora o camião e os dois carrijões. Estes foram buscar os carvalhos e, para grande espanto do chefe de escuteiros, um veio com as mãos a abanar e o outro trouxe, debaixo do braço, um feixe de tenras arvorezinhas, como se de um molho de couves novas se tratasse.
 
Não há dúvida nenhuma que somos diferentes uns dos outros. E estas diferenças levam a modos diversos de «ver» a realidade. Nem todos vemos com os mesmos olhos e sob o mesmo prisma. Há pessoas que, mesmo sem maldade, são dadas ao exagero. E onde uns afirmam ver uma pulga, outros teimam a pé junto que veem um elefante. Cada um fica na sua e apresenta a realidade tal como a «viu». E divulga essa visão distorcida das coisas.
Como há meios de comunicação social que se limitam a apregoar o que lhes sopram ao ouvido, sem terem o cuidado de se informarem devidamente, tanto falam de pulgas como de elefantes, sem descontarem os exageros.
Como há, também, pessoas que não pensam pela própria cabeça mas pela televisão que veem, pela rádio que ouvem, pelo jornal que leem, andam persuadidas da existência de pulgas e de elefantes quando, na realidade, nem umas nem outros existem.
Os exageros passam, então, de boca em boca e por causa disso muita gente anda enganada, tratando pulgas como se fossem elefantes e elefantes como se fossem pulgas. Regateando aplausos a quem os merece e batendo palmas quando, por justiça, o não deveria fazer.
 
Conclusão: casos há em que uma coisa é a realidade e outra, a forma como essa mesma realidade nos é apresentada.
O ideal seria que não houvesse exageros, nem por excesso nem por defeito. Mas porque os há, o bom senso recomenda que andemos atentos. Que exerçamos o nosso sentido crítico. Que procuremos conhecer a realidade, dando a cada coisa o seu valor e tratando cada coisa com a importância que lhe deve ser atribuída. Porque continua a ser verdade que nem tudo o que luz é ouro, embora os profissionais da adulação e do bota-abaixo tentem convencer-nos do contrário.
É bom tomarmos consciência da existência de zelosíssimos defensores do património para quem tudo é de preservar, porque veem uma preciosidades na mais vulgar das insignificâncias, e de acérrimos defensores da modernidade e do progresso que não têm o mínimo respeito pela memória dos povos.
No meio está a virtude. Não há como dar o devido desconto a todos os exageros. Para que não chamemos pulga ao que é mais do que isso nem apelidemos de elefante o que está longe de o ser.




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