Fotografia:
Duas jarras no jardim do continente

O título anotei-o num papel, para não esquecer, depois de ter reparado, na semana passada, numa fotografia na capa de um jornal diário nacional. É a síntese, em português da Madeira, da imagem que então percepcionei. Duas jarras, em tempos apreciadas, hoje repudiadas. Uma jarra decora. Duas decoram muito mais. A maioria das vezes, a utilidade fica por aí, mas pode não ser pouco. Só em casos excepcionais a prestação supera este fim. Mesmo assim, se houver bom aproveitamento e se for utilizada com um fim necessário. Na verdade, há as que desempenham a sua função, outras que não, que até estorvam. Nas coisas da decoração como da política.

Luís Martins
6 Ago 2013

Cada jarra deve, em princípio, conter flores. Podem ser secas ou naturais, mas se forem utilizadas as últimas, vai ser precisa água para as manter viçosas. Apesar disso, ao fim de um certo tempo, podem perder a frescura e precisarem de ser substituídas. As do jardim do continente, deste jardim à beira-mar plantado, também, sob pena de ficarem encarquilhadas. Mas dizem-me que as jarras do continente, isto é, de Lisboa, para usar os critérios madeirenses, não têm flores. Ora, se assim é, nem sequer conseguem embelezar. São um estorvo. Não respondem ao objectivo para o qual foram criadas.

Não é que não tenha antes já desconfiado disso, mas agora que no-lo dizem e as vemos, às jarras, lado a lado, a olharem-se dissimuladas, em pose para a fotografia, comprometidas com a fuga ao compromisso quando foram adquiridas fez há pouco dois anos, não restam dúvidas sobre a sua obsolescência. Como elas, temos delegados que ocupam o lugar no parlamento, mas que não representam nada, que contam apenas para o número nas votações.

Por cá, há jarras que custaram os olhos da cara a muitos que julgaram que tinham as peças certas para o objectivo estratégico que queriam para o país, mas também para os que desprezaram logo de princípio as ditas–cujas. Houve concorrência que ficou para trás, que foi apeada, por causa da proclamada qualidade das que estou a falar e isso deixa-nos a muitos defraudados. Têm-nos custado demasiado a todos, a apreciadores e a detractores, ao ponto de não sabermos como suportar tanta dívida nem percebermos como é possível estarmos a endividar-nos mais do antes para as amortizarmos a elas e às que as precederam, incluindo os custos de contexto, as auto-estradas, as parcerias, os submarinos e outras guloseimas. Aos pares costuma ser mais barato, mas a nós, as jarras que temos estão a custar–nos o dobro ou mais.

É verdade que tínhamos a esperança de conseguirmos algum sucesso. Mas, certo é que, por erro imperdoável e irrevogável, as últimas peças nos saíram uma inutilidade. Em vez de decorar, só têm estorvado. Em vez de embelezar o espaço, estão a ocupá-lo e a impedir que outras preencham melhor a montra. Temos um par de jarras que em vez de facilitar, só dificulta. E se um obstáculo é muito, dois são demais.

O mordomo vai colocando as jarras no sítio, ajeitando-as, pondo–as apresentáveis no tempo e no espaço. Acontece que nem sempre encaixam na mobília nem no contexto e não respondem aos interesses dos stakeholders. Ora, jarras que não cumprem o fim para que foram adquiridas devem ser lançadas fora. Na política também é assim. 

A vida útil é curta, efémera, ainda mais se o objecto deixa de ser apreciado. As que temos estão sós, isoladas dos que as adquiriram e de tudo. Certo é que jarras sem flores não têm valor. Ficam sem graça. E nos tempos que correm, bem precisávamos de outras que nos transmitissem alegria. Jarras tão novas e já tão fora de prazo! Isto é verdade tanto na vida caseira, como na política.

Não pensem que me refiro aos coordenadores do Bloco de Esquerda. Deixo uma dica para o caso de quererem adivinhar: comportam-se como a fiscalidade do país, que agora é assim, depois já não é; se fosse possível dar-lhes vida, retirá-las do seu estado de plástico, seriam, mesmo assim, menos valiosas do que as que tenho à minha frente.




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