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Quatro viagens, três notícias

Os noticiários televisivos portugueses, ao longo destes dias mais recentes, têm dado enorme destaque a viagens que correram mal, muito mal. A série começou com o desastre de comboio, na Galiza, à entrada de Santiago de Compostela. Sobre o acidente, sabemos tudo. Sabemos quais são as características do comboio, a idade do maquinista, onde mora, que um irmão se suicidou, que a mãe não tem tido muita sorte na vida, o que escreveu no Facebook, o que disse ao juiz. O diário El País, atropelando as regras do jornalismo decente, divulgou uma gravação com o que ele disse ao magistrado que acompanha o caso. A violação da privacidade é vergonhosa e totalmente injustificada, pois as afirmações difundidas eram de escassa relevância informativa.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
4 Ago 2013

Ficámos ainda a saber quem foram as pessoas que morreram e as que sobreviveram. Sabemos que, ao número dos que escaparam, se acrescentou, dias depois, uma vida, quando uma senhora descobriu que estava grávida. Como o jornalismo é, tantas vezes, também uma espécie de competição em que triunfa quem descobrir o aspecto mais insólito de um acontecimento, nada fica por apurar.
Se um jornal descrevesse o que se passou e na frase seguinte repetisse tudo e, a seguir, tornasse a repetir, e isto durante mais umas quantas vezes, qualquer leitor estranharia. A informação estava dada na primeira frase. Não era, evidentemente, necessário repetir. Num noticiário televisivo, é diferente. A imagem do descarrilamento era e ainda continua a ser exaustivamente repetida em cada noticiário, mostrando que o que, nele, mais importa é, não a informação, mas o espectáculo que as imagens podem oferecer.
Dias depois, um novo acidente ocorrido em Itália emocionava os telespectadores mais sensíveis. Um autocarro que transportava cerca de meia centena de habitantes de Pozzuoli, uma pequena localidade perto de Nápoles, despistou-se quando circulava na auto-estrada que liga Nápoles e Bari, chocou contra várias viaturas e caiu de um viaduto com cerca de 30 metros de altura, provocando quatro dezenas de mortos. Como de costume, abundaram as hipóteses sobre a causa do acidente. A enumeração inclui erro de condução, excesso de velocidade, falha nos travões, mau desenho do trajecto. O costume.
A série de desastres prosseguiu com um acidente ferroviário na Suíça. No centro do país, no cantão de Vaud, na localidade de Granges-près-Marnand, no fim de um dia de trabalho, dois comboios colidiram de frente. Houve uma morte, a do maquinista, e dezenas de feridos, cujo número varia consoante a fonte informativa. O que se apresentou como mais susceptível de tocar a sensibilidade dos telespectadores foi a existência de uma vítima portuguesa. Os pormenores sobre o embate foram menos abundantes do que no caso galego, mas não faltaram, tendo-se ficado a saber, por exemplo, que o sistema ferroviário helvético é muito seguro, o que, todavia, não impede todos os acidentes. Há três anos, registou-se um descarrilamento que também fez um morto.
A lista incluiu mais um desastre durante outra viagem, mas sobre ele nada ou pouco se soube. Desta vez, a tragédia teve uma nula ou uma muito reduzida atenção mediá-tica. De facto, quase não foi notícia. E, no entanto, a viagem de imigrantes que atravessavam de bote o Mediterrâneo em direcção a Itália causou a morte de trinta e uma pessoas (nove eram mulheres). Sobreviveram vinte e dois passageiros, provenientes da Nigéria, Gâmbia, Benin e Senegal, que foram resgatados por um navio mercante que passava por perto e conduzidos para a ilha italiana de Lampedusa, que o Papa Francisco escolheu para realizar a primeira visita apostólica do seu pontificado.
Sobre o que se passou na Galiza, pudemos ver e saber tudo. Nomes e estados de espírito. Rostos. Minudências técnicas sobre as balizas de sinalização dos sistemas de monitorização e segurança da linha. Os últimos pensamentos do maquinista antes do descarrilamento. Sobre o naufrágio, quase nada sabemos. Quando, dias antes desta tragédia, esteve em Lampedusa, o Papa afirmou que foi à ilha “chorar os mortos” dos imigrantes do Médio Oriente e Norte de África que sonham em chegar à Europa e que não sobrevivem ao atravessamento do Mediterrâneo.
Com a visita, o Papa queria chamar a atenção do mundo para o “mortos que ninguém chora”. Poucos dias depois, como na história dos parvos que ficam a olhar para o dedo que aponta para a lua, percebia-se que não havia quem quisesse olhar para a tragédia que o dedo pontifício tinha querido apontar.




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