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O tempo de Encontro na Missa2

Foi o afastamento progressivo da prática religiosa e a evolução cultural em que as simbologias vão perdendo significado e apelo que forçaram os responsáveis religiosos a introduzir algumas mudanças no ritual da missa, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II; mas, essas mudanças têm-se processado tão lentamente que ninguém diria que já começaram há 50 anos… Mais dos que deviam promover a natural evolução que da parte do povo parece haver uma obscura força de inércia conservadora que as não deixa avançar. Essas mudanças tendem a aproximar a missa da leitura realista do acontecimento da Última Ceia e a distanciar-se da sua interpretação judaico-cristã de sacrifício religioso.

M. Ribeiro Fernandes
4 Ago 2013

A primeira mudança foi o nome, passando a chamar-se eucaristia, em vez de missa; o altar passou a ficar voltado para o povo, embora permaneceu o sentido de altar de sacrifício em vez de mesa de refeição da Última Ceia; passou a usar-se a língua vernácula, a língua que o respectivo povo fala, em vez da língua antiga do latim, que já ninguém entendia; introduziram-se gestos característicos de dinâmica de grupo, como o abraço de paz… Houve, em termos simbólicos, alguma aproximação do povo, mas essa aproximação é pouco explícita em termos compreensivos.

1. Uma área em que não se tocou nem referiu foi a expressão arquitetónica das igrejas. Claro que não se podia (nem devia) mudar a expressão arquitetónica das igrejas já existentes, porque ela faz parte da cultura de um tempo e da evolução histórica das ideias e da respectiva forma de expressão litúrgica religiosa. Elas não foram programadas para o encontro, mas para o culto do sacrifício: foram desenhadas, em naves longitudinais e em forma de cruz, de forma a exprimir a convergência das atenções para o altar do sacrifício e para quem a ele preside, com a função de dirigir e de ensinar. No entanto, foram-se construindo novas igrejas (e novas salas polivalentes, centros paroquiais) que poderão mais facilmente ser adaptados à dinâmica do encontro na missa. Quando foi construída a nova igreja de Fátima, fiquei com esperança que ela fosse inspiradora de uma nova era da expressão litúrgica dos cristãos na missa, porque é circular e tem uma expressão arquitetónica simbolicamente cristocêntrica no meio do Povo de Deus, com 12 portas, ao lado da porta principal, todas convergindo para ela; mas quase ninguém foi capaz de assumir essa inovação na representação litúrgica e tentaram até reconverter a sua funcionalidade. Ainda hoje parece que incomoda, porque põe em relevo o lugar do Encontro do Povo de Deus, remetendo para a função de serviço os que desempenhavam as anteriores funções de poder e orientação de monólogo. A direcção da Igreja continua muito marcada por mitos e símbolos de poder. Que o diga o Papa Francisco que, ainda agora, no Brasil, se sentiu na obrigação de apelar aos Bispos para que fossem apenas pastores e não príncipes da Igreja e se desenvolvesse a cultura do encontro.

2. Quem entende a missa como reunião festiva dos cristãos vem com uma atitude diferente de quem vem para assistir (aqui é mesmo assistir) à representação do sacrifício. Não vem compungido e em silêncio, mas alegre por reencontrar os irmãos na fé e neles descobrir o seu Mestre e Senhor e com eles celebrar a eucaristia. Procuram conhecer-se melhor uns aos outros e ajudar-se mutuamente, criando laços de amizade, já que a maneira mais profunda e global de conhecer alguém é através do amor. Quem desempenhar a função de dirigir e unir a assembleia não deve seguir um modelo directivo, mas de diálogo, procurar saber como vai cada um, esforçar-se por prestar ajuda quem dela precisar e apelar à solidariedade, receber os que vão chegando (já conhecidos ou não) e apresentá-los ao grupo, com a alegria e satisfação de quem vai para o banquete do Senhor. O amor é a única energia que transforma os corações e saber-se aceite pelo grupo pode fazer a diferença para se sentir comprometido com ele. Se dispuser a sala em forma de semicírculo, melhor os participantes se verão e comunicarão uns com os outros.

4. Conheço, no Algarve, uma igreja nova com essa disposição que procura imprimir ao Encontro essa dinâmica e que, no Verão, é muito procurada por pessoas que por lá passam férias e se não cansam de a elogiar. Obviamente que só a disposição arquitetónica não basta; tudo depende também de quem faz a animação da assembleia e sabe aproveitar essa disposição. Porque, neste modelo organizacional, o acento do valor tende a ser posto no Povo, para o conduzir à procura transcendente da presença prometida na Ascensão: “onde dois ou mais se reunirem em meu nome, eu estarei no meio de vós”. E esse tempo de Encontro prepara o ambiente para que se desenvolva o espírito de comunidade de fé que procura ouvir a mensagem da Palavra que lhe vai ser anunciada, a partir da Bíblia e da Vida da Igreja. Palavra que é sacramento da fé. E que, ao ser vivida e expressa em grupo, adquire outra ressonância dentro de cada um e é, por si, estímulo de evangelização.




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