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Um Olhar em Redor

Fiquei vivamente impressionado com estes números: 93% dos alunos do 4.º ano que repetiram o exame de Português por não terem alcançado nota positiva na primeira fase de exames chumbaram, ou seja, dos 3.189 nestas condições apenas tiveram nota positiva 223, sendo de notar que estes alunos frequentaram um período (duas ou três semanas) de aulas suplementares. Surpreendido, disse, mas não totalmente admirado, visto que já nos exames anteriores (9.º e 12.º anos) os resultados não tinham sido também animadores, antes pelo contrário.

Joaquim Serafim Rodrigues
3 Ago 2013

Quanto à matemática não me pronuncio, tratando-se de uma ciência que tem por objecto as propriedades da grandeza, até onde ela se pode medir ou alcançar. E nem todos têm propensão para essa matéria. Mas a nossa língua, Senhor! Arrepia-me aquilo que afirmou em tempos a professora universitária Fátima Bonifácio: “A maior parte dos alunos universitários são analfabetos e nem sequer percebem aquilo que lêem”.
Quais as razões que contribuem para este descalabro cultural e logo numa disciplina, o nosso idioma, do qual nos devería-mos orgulhar por ser isso, a fala, aquilo que, acima de tudo, impõe e distingue um povo? Culpa dos professores? Mas como, se há anos que são rebaixados, desprestigiados e ninguém mais se aproveita disso senão o aluno? Este, por sua vez, é outra vítima: um adolescente, ou mesmo um jovem, perdido no meio de uma sociedade indiferente e rodeado de solidão.
E como podem os professores, a maioria deles sem trabalho assegurado, senão mesmo desempregados ou colocados em escolas que os afastam das famílias, qual o seu ânimo, o seu estado de espírito quando obrigados, nessas condições, a desempenharem a sua nobre missão? E digo nobre no sentido mais amplo do termo, pois é logo nos primeiros anos de ensino que se preparam os homens de amanhã. Por isso, no Japão, quando passa o professor primário são os generais que se levantam!
E em casa, grande parte desses jovens lêem o quê?! Mal preparados, sem terem adquirido o gosto pela leitura (atenção às causas que inúmero atrás) mal ouviram falar de Camilo, de Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Ferreira de Castro, para não citar inutilmente outros nomes nem ir mais fundo na nossa literatura.
Sabem, acaso, que algumas palavras têm um grande poder evocativo, que elas crescem no nosso imaginário, monopolizam o nosso pensamento, criando em nós toda a sorte de emoções?
Os media têm aqui a sua quota-parte de responsabilidade, quer as televisões quer o mau jornalismo: é sempre mais cómoda a falta de coragem, a cumplicidade em se tratando, principalmente, de encarar a política. E descuram não poucas vezes a recta-pronúncia, o que seria ainda de certo modo desculpável. Mas vão mais longe: vendem, até, a própria liberdade de espírito, a liberdade de expressão. E sendo através da escrita que melhor expressamos as nossas ideias e pensamentos, como podem os nossos jovens, face a tão desolador cenário, aperceber-se de quanta beleza existe numa estrofe de Camões como esta que cito agora?: “Os bons vi sempre passar/no mundo graves tormentos;/e, para mais me espantar,/os maus vi sempre nadar/em mar de contentamentos./Cuidando alcançar assim/o bem tão mal ordenado,/fui mau, mas fui castigado./Assim, que só para mim/anda o mundo concertado…”.
Concluo com este pensamento de Victor Hugo: “As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade”.
E findo, por hoje.




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