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No rescaldo da crise política: “É preciso acreditar”…

“É preciso acreditar”, assim começa um dos mais belos fados de Coimbra, com poema de Leonel Neves, que a voz de Luiz Goes imortalizou. Na conjuntura atual, mais do que repetir o poeta, é importante que o Governo de Portugal faça tudo para que o sentimento de esperança, aberto com a sua recente renovação, não se desvaneça.

J.M. Gonçalves de Oliveira
30 Jul 2013

“É preciso acreditar”, assim começa um dos mais belos fados de Coimbra, com poema de Leonel Neves, que a voz de Luiz Goes imortalizou. Na conjuntura atual, mais do que repetir o poeta, é importante que o Governo de Portugal faça tudo para que o sentimento de esperança, aberto com a sua recente renovação, não se desvaneça.
Dois anos de difícil e agitada governação, em que o principal objetivo foi recuperar a confiança junto das instâncias internacionais, quase terminavam em verdadeiro haraquíri dos próprios governantes. Não será demais lembrar o melodrama que envolveu o Governo, o Presidente da República e os partidos da oposição, principalmente o Partido Socialista, que terminou com a tomada de posse de novos ministros e secretários de Estado, ocorrida na pretérita semana.
Do rescaldo da turbulência que se arrastou por cerca de três semanas, resultou um Governo com uma estrutura funcional bem diferente, com novos protagonistas e, sobretudo, com uma imagem renovada. Acredito ser um bom princípio.
Além destas conhecidas alterações, é de saudar a vontade expressa por boa parte dos seus membros de anunciar um novo ciclo que, não abdicando do cumprimento das obrigações internacionalmente assumidas, permita retomar o crescimento económico e, com ele, combater a praga do desemprego.
Estes propósitos explicitamente referidos, a par dos novos rostos da equipa governativa, detentores de experiência e pergaminhos curriculares que os credibilizam, permitem-nos alimentar a esperança de que um novo período irá nascer.
As expectativas criadas à volta do rejuvenescido Governo de Portugal, relegando para o subconsciente da memória as peripécias vividas no passado recente de violenta austeridade, são motivo bastante para alimentar a crença no tempo que agora começa. Apesar da penúria acumulada, de algumas feridas por curar e de todos os contratempos que possam surgir, é preciso manter a chama que irrompeu com as mudanças anunciadas. Não há tempo a perder.
Na conjuntura atual não é realista pedir muito. Julgo que para os portugueses será suficiente recuperar a estabilidade e vislumbrar alguns sinais que avalizem as promessas feitas.
Considero fundamental repetir com frequência a ideia de que é possível um novo ciclo, não por simples palavras, mas por ações que demonstrem que esse novo rumo já começou.
Há um conjunto de declarações conhecidas que apontam nesse sentido, como o desejo de mais diálogo com os partidos e parceiros sociais e um outro enfoque no crescimento económico e no combate ao desemprego. Porém, julgo importante não prolongar o tempo para o aparecimento de indícios que consubstanciem a vontade de mudar e reforcem a ideia de que é possível continuar a acreditar. O povo, fatigado pelas agruras do dia-a-dia e dando mostras de um crescente afastamento dos políticos, não esperará muito pela chegada de algum sintoma que mostre a verdade das intenções formuladas.
Nos limites que a atual realidade confina, não resta ao Governo senão dar os sinais necessários para que a convicção de que “é preciso acreditar” não se dilua no tempo.
Admito que a tarefa é gigantesca, mas penso que há boas razões para não perder tempo.
A anunciada reforma do IRC (Imposto sobre os Rendimentos das pessoas Coletivas) é uma boa notícia, embora já tivesse sido prometida há longos meses. A reformulação do IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado) fazendo baixar a tão reclamada taxa na restauração, nem que para isso fosse necessário introduzir um novo escalão para certos produtos de luxo, poderia constituir um importante sinal na afirmação de um novo caminho.
Com trabalho e imaginação, a par de uma boa negociação com os credores internacionais, será possível a Portugal encontrar a autêntica “salvação nacional”, tão apregoada nas últimas semanas. Os interesses próprios dos diversos agentes envolvidos devem ser subjugados à conveniência nacional. É tempo de intimar que cada um assuma as suas responsabilidades em prol do bem de todos os portugueses. Ao Governo impõe-se que tudo faça para que possamos continuar a dizer, convictamente, que “é preciso acreditar”.

Post-scriptum: Ao Padre Professor Doutor José Fernando Pereira Borges, que recentemente partiu para a eternidade, quero deixar o meu preito de homenagem pela dimensão do seu saber, pela oportunidade dos seus conselhos e pela amizade nunca regateada. Que descanse em paz.




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