Fotografia:
As nódoas

Não é fácil esquecer o que se passou logo no início do mês em curso, sobretudo, pelas consequências que não teve e pela constatação de que em política, afinal, vale mesmo tudo. Tinha e tenho para mim que a dignidade que deve existir em qualquer cargo, mormente quando esse cargo é de representação dos cidadãos, implica respeito e valores. E que quando aquela desaparece, o melhor é que o detentor do cargo se afaste para não prejudicar a instituição. Não foi o que aconteceu. O que era impensável, tornou-se realidade e o país saiu duplamente prejudicado. As consequências foram adiadas até novo episódio e a credibilidade nacional foi posta em causa, já sem considerar que os cidadãos se sentiram enganados e ficaram mais desconfiados dos seus representantes. Aos mais diversos níveis e funções.

Luís Martins
30 Jul 2013

Não é fácil esquecer o que se passou logo no início do mês em curso, sobretudo, pelas consequências que não teve e pela constatação de que em política, afinal, vale mesmo tudo. Tinha e tenho para mim que a dignidade que deve existir em qualquer cargo, mormente quando esse cargo é de representação dos cidadãos, implica respeito e valores. E que quando aquela desaparece, o melhor é que o detentor do cargo se afaste para não prejudicar a instituição. Não foi o que aconteceu. O que era impensável, tornou-se realidade e o país saiu duplamente prejudicado. As consequências foram adiadas até novo episódio e a credibilidade nacional foi posta em causa, já sem considerar que os cidadãos se sentiram enganados e ficaram mais desconfiados dos seus representantes. Aos mais diversos níveis e funções.
Há quem tente convencer-nos agora de que já está tudo bem, mas sabemos que não. A crise não passou. Só aparentemente é que há uma nova vida na coligação. Não basta que no-lo digam. Há ainda muitas dúvidas no ar. Os problemas não se resolvem com discursos mais ou menos inflamados, prometendo o que não sabem se vai ser cumprido. De boas intenções está o inferno cheio. As férias estivais vão ajudar a acalmar o ruído, mas só isso. O resto, as contradições irremediáveis vão continuar latentes até que se tenha de mexer novamente nos assuntos críticos e imperiosos. É preciso que o enredo e o filme que ainda corre acabem de vez.
Talvez a crise fique suspensa, em stand-by, por algumas semanas. Talvez se mantenha adormecida durante o tempo de veraneio, mas a certeza só a teremos depois da rentrée, quando estiver a preparar-se o Orçamento de Estado para 2014 e a troika tiver telefonado a dizer em que voo chega e que dossier quer discutir prioritariamente. Entretanto, haverá muitos que esperavam ir de férias com os filhos e já não vão, por terem ficado com a vida ainda mais complicada, por causa da empresa que encerrou e os levou para uma situação de desemprego. A Assembleia de República e o Governo vão de férias, mas a economia não e vai continuar a deitar, borda fora, mais pes-
soas para a inactividade. O Governo vai continuar a dizer até à exaustão, como sempre faz, que se trata de um flagelo social, mas, na verdade, é que na prática, está-se marimbando para os resultados das medidas recessivas.
Se os cortes cegos de 4,7 mil milhões voltarem a estar sobre a mesa, sem mais, o aparente sossego e a paz que parece existir, terminarão. Silva Peneda já avisou que os cortes previstos terão efeitos “preocupantes em termos económicos e sociais”, mas, até ao momento, parece não ter sido escutado por quem manda e pode decidir para o evitar. Estou certo de que, quando se der a volta à mixórdia da barrela depois do descanso, continuará tudo na mesma.
Até ao momento, a intervenção do Presidente só ensaboou a crise, nem sequer a torceu. A reprimenda não chegou a apertar nenhum dos políticos responsáveis. Depois disso, da ensaboadela, faltaria ainda passar por água limpa e colocar a secar para início de novo ciclo sem nódoas. Não foi o que aconteceu. E quando a operação não é concluída com sucesso, num ápice aparece o caruncho e há sério risco da coisa encardir e acabar mesmo por apodrecer.
Quando se deixa que as coisas cheguem ao estado a que chegaram, só mesmo de barrela. Não é que resolva tudo. Há quase sempre nódoas que ficam, algumas difíceis, mas que desaparecem ao fim de algum tempo, embora outras insanáveis que nem mesmo sucessivas barrelas as fazem desaparecer. No caso da recente experiência, não foi excepção. Algumas nódoas não desapareceram. Não foram retiradas e houve oportunidade para isso. O que é que nos garante que no futuro, a crise se não repete nas dimensões que atingiu ou, quiçá, em maior e mais grave escala? A irresponsabilidade pode voltar em breve. Nessa altura, pode não haver tempo para acautelar os portugueses.




Notícias relacionadas


Scroll Up