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Como ordenar os gastos… corretamente?

Há dias soube da atitude de um dirigente de uma instituição particular de solidariedade social que decidiu protelar (dentro dos parâmetros possíveis e nas datas aceitáveis) o pagamento dos vencimentos dos (seus) funcionários por uns dias para que estes não gastassem o dinheiro precipitadamente. É que havia uma festa, na localidade, no intervalo entre essa data e o final do mês, e corria–se o risco de gastarem o ordenado desordenadamente… Pior ainda, isto tinha por base uma outra experiência mal sucedida, por ocasião do Natal/fim de ano, em que, tendo pago os ordenados uns dias mais cedo do que o habitual, em dezembro, a meio de janeiro, já andavam muitos atrapalhados com a insufi-ciência de saldo…

António Sílvio Couto
29 Jul 2013

Há dias soube da atitude de um dirigente de uma instituição particular de solidariedade social que decidiu protelar (dentro dos parâmetros possíveis e nas datas aceitáveis) o pagamento dos vencimentos dos (seus) funcionários por uns dias para que estes não gastassem o dinheiro precipitadamente. É que havia uma festa, na localidade, no intervalo entre essa data e o final do mês, e corria–se o risco de gastarem o ordenado desordenadamente… Pior ainda, isto tinha por base uma outra experiência mal sucedida, por ocasião do Natal/fim de ano, em que, tendo pago os ordenados uns dias mais cedo do que o habitual, em dezembro, a meio de janeiro, já andavam muitos atrapalhados com a insufi-
ciência de saldo…

Extrapolando este exemplo para o quadro do país e de muitas famílias portuguesas, poderemos apresentar breves perspectivas sobre algumas causas e outras tantas consequências… visíveis ou previsíveis.
Comecemos por fazer algumas (‘inocentes’) perguntas: Será que as pessoas não fazem contas ao que ganham e ao que podem gastar? Porque se gerou uma certa tendência despesista – tanto ao nível pessoal como na dimensão do país – em que não se fazem contas às possibilidades mais básicas? Será verdade que as pessoas não fazem contas à vida e aos meios com que contam para honrar os seus compromissos, mesmo os mais essenciais? Não haverá uma tendência, cada vez mais generalizada, de pensar em que alguém, que não o devedor, há-de pagar o que gastamos sem tino nem tento?

Digo-o de forma simples, directa e sincera: fui educado a nunca gastar mais do que aquilo que se tem. Inclusive ouvia na minha família: ‘quem não tem dinheiro não inventa modas nem tem vícios’! E ainda: ‘as coisas têm de durar até que possa haver dinheiro para comprar outras’!…

= Educar para a austeridade ou ter sentido de pobreza?
Agora que o país está ainda sob resgate do empréstimo, que nos foi concedido para termos o dinheiro mínimo em ordem às despesas gerais, e, tendo-se gerado um clima de austeridade a toda a prova, urge reflectir que modelo de sociedade queremos: gastar sem olhar a meios ou saber viver com o essencial? Também, na perspectiva cristã da vida e dos valores, poderemos questionar se já aprendemos a viver com a atitude de gente pobre (andrajo, resmungão e mal agradecido) ou em espírito de pobreza sem pactuar com uma resignação preguiçosa, mas antes aferindo-se ao que é essencial?
Como povo português não temos sabido conviver com estes novos desafios, pois nos achávamo-nos numa certa Europa de ricos e julgávamos que nunca mais teríamos de viver com dificuldades. No entanto, bem depressa nos atulhamos na lama do desemprego, nas teias da subsidiodependência, nas garras da promiscuidade entre o legal e o biscate… para flutuar até ver se resulta ou em não ser descoberto!

= Do desperdício à reaprendizagem com o essencial
Sobretudo as gerações educadas nos últimos quarenta anos – muitos já nem se lembram do 25 de Abril – têm de aprender a valorizar as coisas, deixando de viver numa certa vida fácil, desde o brinquedo recebido por birra até à prenda que foi dada sem pedir nem tão pouco merecer. Neste aspecto de aprendizagem tem sido muito útil um programa ficionado televisivo sobre as dificuldades dos ‘retornados’. Aí se vê como nós, portugueses, temos estofo de lutadores e não nos resignamos ao ‘deixa correr’ e em que alguém fechará a porta quando tudo tiver acabado!
Agora que as coisas estão a mudar, precisamos que os responsáveis, tanto das instituições públicas, como as de índole privada, singulares ou colectivas – onde por excelência incluímos a Igreja Católica – unam esforços numa pedagogia da assumpção dos nossos erros e numa propulsão das nossas capacidades.
Basta de tanto choradinho, que não paga dívidas. Precisamos de mudar de paradigma… mental e cultural. Urge criar outra mentalidade… mais modesta e séria. Assim sejamos dignos de criar esperança neste Portugal, que tem futuro, sabendo ordenar os nossos gastos… correta, cívica e responsavelmente.




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