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Um olhar em redor

O sr. Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, ausentou-se para as ilhas Selvagens precisamente na altura em que decorriam em Lisboa negociações entre os chamados partidos do arco da governação (PSD-CDS-PP e PS), com vista a um entendimento entre estas três forças políticas, negociações que, impostas pelo próprio chefe de Estado, deveriam culminar numa espécie de compromisso de salvação nacional.

Joaquim Serafim Rodrigues
27 Jul 2013

O sr. Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, ausentou-se para as ilhas Selvagens precisamente na altura em que decorriam em Lisboa negociações entre os chamados partidos do arco da governação (PSD-CDS-PP e PS), com vista a um entendimento entre estas três forças políticas, negociações que, impostas pelo próprio chefe de Estado, deveriam culminar numa espécie de compromisso de salvação nacional.
Antes de prosseguir, interrogo-me; Por que motivo ficaram de fora os restantes partidos? Actuam na clandestinidade, ou têm assento, como todos os outros, na Assembleia da República? Nada me liga a qualquer deles (nem aos restantes) conforme julgo saberem os meus habituais leitores, por isso me sinto à vontade ao fazer este reparo, pois esta exclusão, deliberada, mais não consubstancia senão aquilo a que vimos assistindo há muito, ou seja, fazer de conta que vivemos de facto numa democracia. Ora, perante o momento tão grave que o nosso país atravessa, impunha-se, ao menos, salvar as aparências!
Prossigo, no seguimento daquilo que logo ficou subentendido no início desta minha crónica: a viagem do sr. Presidente da República às Selvagens não poderia ter sido adiada, mantendo-se, o mais alto magistrado da nação no seu posto, ou seja em Belém, enquanto durassem as referidas negociações, por ele impostas com carácter de urgência, até à conclusão das mesmas? Sabemos que ia sendo informado acerca do andamento desses encontros entre os partidos em questão, até porque tinha lá, entre eles, um “observador” – mas seria outra coisa, teria outro significado a sua presença aqui. Mas não, Sua Excelência optou por percorrer as Selvagens, acariciando e colocando anilhas nos passarinhos, com vasto acompanhamento (visita de Estado?) encontrando-se a seu lado digamos que o Governador das ilhas, que dá pela nome de Alberto João Jardim, aquele que, aqui há tempos tratou o Presidente da República por “sr. Silva”. Enfim…
E agora? Quais os próximos capítulos desta tragicomédia, chamemos-lhe assim, sem forçar a ironia? Eleições antecipadas conforme preconizam alguns? Só que esta via foi logo à partida rejeitada pelo Presidente da República. Manter o Governo (que governo?) em funções? E quanto a Paulo Portas? Saiu mesmo, ou já entrou? Qual a sua posição dentro do actual executivo? Trata-
-se ainda do ministro dos Negócios Estrangeiros, que há pouco apresentou desculpas à Bolívia por causa dos incómodos criados ao seu presidente Evo Morales e sua comitiva ao pretender sobrevoar o nosso espaço aéreo? Ou abandonou já esta pasta e, como vice-primeiro ministro, ao que consta, chamou a si tratar ele próprio da nossa política financeira aceitando a prestimosa colaboração da nova ministra das Finanças Maria Luísa Albuquerque? Mas este homem, a quem alguém muito respeitável já chamou de “salta-pocinhas” tem agora também a dom da ubiquidade?
Vamos esperar para ver, pois escrevo neste domingo dia 21 antes de ouvir aquilo que o Presidente da República tem para nos dizer. Contudo, nada daquilo que até ao momento escrevi de modo algum estaria dependente dessa sua proclamação marcada para a 20h30 (escrevo de manhã). Afigura-se-me, no entanto, que irá confirmar no poder a coligação actual, outorgando-lhe a sua confiança, embora com um outro remendo na embarcação (mais um). Perdoem-me esta metáfora, a terminar, mas é incontestável que sempre fomos e somos ainda um país de grandes mareantes. Só que esta nau (ai, lá vou eu transportado sem querer para as nossa façanhas de quinhentos), há muito já que anda à deriva, por falta de tripulantes à altura, qualificados, comandada por um capitão incompetente. E assim sendo, jamais venceremos este novo Adamastor que temos pela frente, constante do canto V de os Lusíadas, constituindo uma das mais belas criações do nosso épico imortal.
Com tal gente, nunca mais, também, um novo cabo da Boa Esperança!




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