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Usar as pessoas

Confesso que também servi de mula de reforço. Também fui usado para fazer número.Aconteceu nos meus tempos de estudante. Quando havia qualquer atividade em que era conveniente apresentar muitas pessoas, chamavam os seminaristas, e penso que também outros estudantes. O falecido P. Brás dizia, ironicamente, sermos as mulas de reforço. E nós lá íamos, obedecendo a ordens dadas, contentes por sairmos do Seminário e por conhecermos, às vezes, outros ambientes. Julgo que sem termos consciência de que estávamos a ser usados.

Silva Araújo
25 Jul 2013

Confesso que também servi de mula de reforço. Também fui usado para fazer número.
Aconteceu nos meus tempos de estudante. Quando havia qualquer atividade em que era conveniente apresentar muitas pessoas, chamavam os seminaristas, e penso que também outros estudantes. O falecido P. Brás dizia, ironicamente, sermos as mulas de reforço. E nós lá íamos, obedecendo a ordens dadas, contentes por sairmos do Seminário e por conhecermos, às vezes, outros ambientes. Julgo que sem termos consciência de que estávamos a ser usados.
Hoje procuro não me deixar usar, mas reconheço ser prática corrente usar as pessoas, servir-se delas, para fins com que, muitas vezes, as mesmas pessoas nada têm a ver.
É preciso mostrar gente, arrebanham-se pessoas. É o que se faz em certas manifestações e em certas campanhas. Aparecem uns habilidosos – não gostam que lhes chamem demagogos mas são-no na realidade – e levam as pessoas de conversa. Põem as pessoas a bater palmas àquilo que lhes (aos tais demagogos) convém e a repetirem palavras de ordem que habilidosamente prepararam. Aliciam-nas com os mais sedutores rebuçados, um dos quais são os transportes de graça para ir aqui e ali. É um Maria vai com as outras, como popularmente se diz.
Gostava de estar enganado, mas estou persuadido de que a coisificação das pessoas é mais frequente do que se possa julgar. Usam-se as pessoas com as mais diversas finalidades. Para lhes apanharem o voto. Para com elas mostrarem serviço. Para dizerem que têm muitos adeptos. Para fazerem jus à capacidade de mobilização.
Claro que isto nada tem a ver com o exercício da cidadania. Nada tem a ver com a participação consciente e responsável. A verdade, porém, é que indivíduos que enchem a boca com o primado da pessoa, com o reconhecimento da dignidade do ser humano, com o respeito pelos direitos de cada um são, muitas vezes, mestres consumados em usarem as pessoas que mentirosamente apregoam servir. Em montarem autênticas peças de teatro em que as pessoas são simples instrumentos. Em manipularem as pessoas ao sabor dos seus interesses.
Para que as pessoas não se deixem usar é imperioso esclarecê-las. É imperioso ajudá-las a verem a realidade e dar-lhes os conhecimentos necessários para que, com consciência e em liberdade, possam decidir. Mas há quem, em vez de ajudar os outros a decidirem em consciência e com liberdade, se prontifica a decidir por eles. Prefere a docilidade à livre escolha. Cria dependências cujos preços cobra no momento oportuno. Para facilmente as dominar não as esclarece nem lhes dá as condições necessárias para que devidamente se esclareçam.
Nisto de esclarecer as pessoas e as ajudar a exercerem os direitos/deveres de cidadania podem desempenhar uma função de primordial importância os Meios de Comunicação Social. E exercem-na, de facto? Quem os controla tem, de verdade, a preo-cupação de contribuir para a formação de indivíduos cada vez melhor informados, mais conscientes, mais livres e mais responsáveis?
Educar é muitíssimo diferente de instrumentalizar e de manipular, que é o que, de muitos modos, faz a sociedade de consumo, cujos princípios continuam a dominar. 
Não quero ser pessimista mas não sei se quem tem o dever de educar tem vindo a educar verdadeiramente. Instrumentos que deveriam estar ao serviço do bem comum andam a ser usados em benefício de interesses particulares. Servem-se ideologias e interesses em lugar de formar pessoas. Em vez de educar as pessoas formatam-se essas mesmas pessoas, de harmonia com as conveniências.
Precisamos mais de pedagogos do que de demagogos, mas não sei se não abundarão mais estes do que aqueles.
O respeito que tenho para com todas as pessoas leva-me a reconhecer que as mulas de reforço dos meus tempos de jovem estudante continuam a ser uma realidade. Mais do que como pessoas, há seres humanos que continuam a ser usados como números. Como carneiros de rebanho que importa sejam cada vez mais dóceis às vozes do chefe que deles se serve como lhe apraz. Continua a haver quem trate seres humanos como robots ou fantoches que habilidosamente maneja, quando o verdadeiramente importante deve ser a existência de seres humanos cada vez mais conscientes da sua dignidade, dos seus direitos e dos seus deveres.




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