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Novela em canal aberto

Enganei-me quando admiti na última crónica que poderia haver um consenso entre os três partidos que assinaram o Memorando de Entendimento com os credores internacionais. Não houve sequer um documento subscrito pelos partidos do arco do poder com generalidades para credor ver. Falhei na minha previsão ao admitir que haveria algum acordo, mesmo que fosse sem substância, o que, apesar de tudo, constituiria uma aproximação sobre matérias estruturais que deverão balizar qualquer programa de governo. Mais do que isso era esperar muito, é verdade, tendo em conta a conjuntura e o posicionamento partidário face ao memorando e à proximidade de eleições.

Luís Martins
23 Jul 2013

Enganei-me quando admiti na última crónica que poderia haver um consenso entre os três partidos que assinaram o Memorando de Entendimento com os credores internacionais. Não houve sequer um documento subscrito pelos partidos do arco do poder com generalidades para credor ver. Falhei na minha previsão ao admitir que haveria algum acordo, mesmo que fosse sem substância, o que, apesar de tudo, constituiria uma aproximação sobre matérias estruturais que deverão balizar qualquer programa de governo. Mais do que isso era esperar muito, é verdade, tendo em conta a conjuntura e o posicionamento partidário face ao memorando e à proximidade de eleições. 
Foi pena que os partidos envolvidos não tivessem chegado a qualquer consenso, mesmo depois de lhes ter sido solicitado pelo superior magistrado da Nação. Mas, reconheço hoje que o processo esteve viciado à partida: o actual Executivo tinha tudo a ganhar e nada a perder se tudo fizesse para não haver acordo. E confirmou-se: não houve acordo e o Presidente já veio dizer que sem ele, o Executivo fica em melhores condições. Incoerente? À luz do que um simples cidadão pode supor, sim. Para um político, há toda a coerência na decisão. Perceberam? Eu não consigo, confesso.
Foram duas semanas de novela com um fim que parecia ser feliz, mas não foi. É o que se me afigura dizer sobre o que se passou depois da comunicação ao país do Presidente. Uma verdadeira novela, com autor, equipa técnica, actores e figurantes. No caso, o realizador é o Presidente. Portas, o actor principal, embora ausente de cena, recolhido, ao que dizem, para se não molhar com os chuviscos deste verão quente de 2013. O actor secundário é Passos. Os coordenadores do Bloco de Esquerda, Jerónimo de Sousa e outros responsáveis políticos, são os figurantes de primeira linha. Todos os restantes, onde nos incluímos, cidadãos anónimos, mas com direito, se quiserem, a constar da história, somos o grosso dos figurantes.
Acredito que o autor da novela não esperasse o desfecho que acabou por lhe dar. E que não se livra de ficar ligado à troca de protagonistas e das cenas dos vários episódios que não eram para passar ou, pelo menos, para passar despercebidos. A verdade, é que com isso, o país andou a penar – nesta altura até não estava distraído por estar mais em casa do que de férias e, logo, mais assíduo à leitura dos jornais e do que passa nos telejornais – expectante numa solução que ajudaria a maioria – do povo, que a parlamentar não é mais representativa, por mais que nos queiram fazer crer – a passar melhor. Fosse qual fosse o desfecho do enredo da novela, haveria consequências. No que conhecemos, o país continua com o mesmo Governo, eventualmente com alguns outros actores – estou a lembrar-me de uma série televisiva também muda de actores no verão – e os políticos saem ainda mais desacreditados, o que não é uma boa notícia.
Não sei se o fim do filme que o primeiro-ministro nos prometeu e que ainda não nos mostrou coincide com o fim da novela em canal aberto e em tempo real. Refiro-me à que nos ocupou e preocupou, pelo menos desde o dia 10 de Julho, dia em que começou a ser gravada e transmitida em directo, embora com intervalos para passar memória em arquivo de há várias semanas e meses a esta parte. Desta vez, não vamos precisar de pagar, pelo menos, para já. Certo é que não requisitamos o canal. Um dia destes, se quiser cumprir a promessa, Passos Coelho vai ter que pedir ao realizador a gravação das últimas cenas. Talvez nessa altura possamos perceber melhor o desfecho da novela, embora alguns não acreditem que nos vão passar o filme sem cortes nem contar a verdade toda, como é o caso da Kika: “Do que já conhecemos, os portugueses ficaram com dúvidas sobre a veracidade do enredo e não vislumbram ainda com nitidez o que é que o fim da novela tem a ver com o argumento. Passos prometeu passar o filme todo, supostamente com final feliz, mas até isso vai falhar”. Como esta amiga, esperamos para ver.




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