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Exista, para isso existe

Os comentadores políticos dividem-se em duas categorias: os comentadeiros e os comentadores. Os comentadeiros são panfletários, usam os argumentos para fazer piada reles, não estão documentados para emitirem as suas opiniões, falam de tudo e de todos fazendo blague barato e ditam as suas conclusões de acordo com as suas ideologias. São muitos, nunca estão sozinhos, atuando em alcateia como lobos famintos de notoriedade televisiva. Falam que se desunham: se

Paulo Fafe
22 Jul 2013

Os comentadores políticos dividem-se em duas categorias: os comentadeiros e os comentadores. Os comentadeiros são panfletários, usam os argumentos para fazer piada reles, não estão documentados para emitirem as suas opiniões, falam de tudo e de todos fazendo blague barato e ditam as suas conclusões de acordo com as suas ideologias. São muitos, nunca estão sozinhos, atuando em alcateia como lobos famintos de notoriedade televisiva. Falam que se desunham: se são sociólogos falam como economistas, se são economistas falam como sociólogos. E de cátedra. No entanto, todos nadando em piscinas alheias, dando braçadas a esmo em águas turvas; como ganham por comparência, estão lá para palrar. Para isso lhes pagam e, diga-se a verdade, eles desempenham bem a vacuidade destes shows. São tantos que já não sei se são um enxame, uma alcateia ou um bando. Muitos deles, se não todos, usam palavras que pouco dizem, encenam comédias e tragédias sociais fazendo de profetas; a mim mais se parecem com cartomantes. Outros caem nas mais absurdas trivialidades ou ditirambos; ainda há aqueles que, querendo parecer neutros, não conseguem disfarçar a parcialidade das suas análises. Pertencem a várias alcateias. Os comentadores são doutro nível. Atuam
sozinhos. Estão municiados de dados recolhidos em investigação própria, sabem as razões e fundamentos das suas apreciações, mostram à saciedade o porquê das suas deduções, exprimem-se com clareza e são honestos segundo os seus pontos de vista. Tenho por eles o maior respeito, embora os não siga como mestres. Julgo que nem sequer faço um grande esforço para me distanciar das suas teses, mas, pela seriedade de que se revestem as suas alegações, oiço-os com toda a atenção e consideração. Mostram com suas teorias as melhores soluções para os problemas do país. De qualquer maneira eu resguardo-me das suas palavras porque tenho o direito de elaborar os meus juízos. Tenho muita pena dos inocentes que os escutam, crédulos e incautos, porque os ouvem como as crianças ouvem as histórias de encantar; por outro lado, começo a entender que já são horas de serem adultos, já são horas de deixarem de se comportar como carneiros, já são horas de distinguir o ruído do som! Por que razão teimam em ser ecos desses ruídos? Uma das variantes da inteligência do homem é saber distinguir o essencial do acessório. Cuidado com a lógica das deduções; é que lógicas certas de premissas falsas levam-nos a conclusões erradas. As palavras dos comentadores e dos comentadeiros, vão-se insinuando, sorrateiramente, entram dentro de cada um de nós e lá germinam. É esta semente que, regada pela propaganda eleitoral, dá sentido de voto. Ouvi-las sem qualquer filtro, é pensar que somos nós, quando já são eles a pensar por nós. Quando somos o outro, nós deixamos de existir. Exista, para isso existe.




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