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Não basta lamentar

Há dias, indo a passar junto a uma conhecida igreja de Alcântara, que se dedica a missas por alma de defuntos (diz quem conhece que, às vezes, antes de começar a missa, anunciam mais de 10 ou 15 intenções e cada um entrega o seu envelope, com a taxa estipulada), reparei que saíam de lá apenas meia dúzia de senhoras de idade. À porta, sentada num banquinho, uma senhora idosa, com aspecto carenciado, estendia a mão à caridade… Esta cena já se tornou vulgar. E fez-me lembrar o desabafo, que também já se tornou vulgar, de um responsável religioso que, após o Crisma, recomendava aos jovens que continuassem a ir à missa para que na igreja não houvesse só velhinhas.

M. Ribeiro Fernandes
21 Jul 2013

Há dias, indo a passar junto a uma conhecida igreja de Alcântara, que se dedica a missas por alma de defuntos (diz quem conhece que, às vezes, antes de começar a missa, anunciam mais de 10 ou 15 intenções e cada um entrega o seu envelope, com a taxa estipulada), reparei que saíam de lá apenas meia dúzia de senhoras de idade. À porta, sentada num banquinho, uma senhora idosa, com aspecto carenciado, estendia a mão à caridade… Esta cena já se tornou vulgar. E fez-me lembrar o desabafo, que também já se tornou vulgar, de um responsável religioso que, após o Crisma, recomendava aos jovens que continuassem a ir à missa para que na igreja não houvesse só velhinhas.

1. Porque é que os jovens se afastam da missa? Não é difícil saber a resposta. Basta conhecer o mínimo sobre a tendência natural da sua idade e a desadequação motivacional da dinâmica da missa. Então, se o fenómeno já se tornou vulgar, é porque algo está inadequado e precisa de ser mudado. E não se espere que sejam os jovens a mudar de natureza. Bem sei que a estrutura da Igreja é muito pesada e lenta, mas, numa altura de crise, como esta que a Igreja atravessa e de incentivo a uma Igreja mais autêntica, como tem feito o Papa Francisco, é uma boa oportunidade para se repensar alguma coisa que antes era mais difícil de fazer.

2. É um facto que a presença nas igrejas é predominantemente feminina e de pessoas
mais idosas, a não ser em terras onde a tradição ainda mantém mais poder de conservação, mas que tende a diminuir com as novas gerações. Certamente que esse facto acontece por variadas razões, que percorrem a estrutura religiosa e a praxis da Igreja. No entanto, é justo reconhecer que a estrutura organizacional da missa tem potencial para gerar maior dinamismo; porém, a sua praxis tem mostrado que é geradora de passividade, está planeada para se assistir e não para participar e está mais implicitamente orientada para um público feminino. A mulher é mais sensível à receptividade e ao sentimento e aceita melhor a figura masculina a dirigir (não estou a dizer que deva ser uma figura feminina a presidir, pois esse assunto é mais complexo do que parece); porém, os homens gostam mais de discutir e organizar e só se empenham naquilo que decidem por eles. É por isso que a praxis do modelo organizacional da liturgia da missa, tal como está, dificilmente é motivadora para os homens: está centralizada numa só pessoa, ignora a dinâmica do grupo, é directiva, gera passividade, tende a fechar as pessoas sobre si mesmas (só, de longe a longe, respondem por exclamações), tudo está centrado na pessoa que dirige (que foi culturalmente sacralizada) e não no grupo.

2. Pode-se replicar que a missa não se pode mudar. Claro que o núcleo essencial da missa, a comemoração da Última Ceia, é intocável; mas, o problema nem sequer é mudar, é gerir dinamicamente. E precisamente por o núcleo central da missa ser o memorial da Última Ceia é que ela devia parecer-se mais com a dinâmica dum encontro onde os amigos se reúnem para reviver e actualizar o sentido dessa comemoração.
Antes de mais, devia ser básico e fundamental realçar o valor do tempo de Encontro. Desse tempo de encontro nasce o tempo de interiorização, de reconstrução da amizade e do sentido que a transcende. E o diálogo íntimo no grupo. A partir do tempo de Diálogo íntimo no grupo, gera-se a disposição para ouvir e para rever. Ouvir a palavra fundadora da tradição e a Palavra em si mesma, que os confronta consigo mesmos.

3. Nesse aspecto, se S. Paulo cá voltasse e visse como é tratada esta parte da missa, caía desmaiado ou então dizia das boas, ele que não era de se ficar calado. Já, no seu tempo, ele recomendava que a leitura dos livros sagrados fosse comentada por quem quisesse fazê-lo e participasse na assembleia; e, por fim, quem preside à celebração encerrasse esses testemunhos pessoais de fé. E como se faz hoje? As velhinhas bichanam o terço enquanto se faz a homilia e os homens, por sua vez, acham que não é nada com eles ou, tal como os jovens, estão ausentes.

4. Outro aspecto fundamental é a necessidade de valorizar o sentido de sagrado no grupo. A celebração deve orientar-se para a descoberta da presença de “Alguém no meio de nós”, presença anunciada antes da despedida da Ascensão. A dimensão pessoal e social. Só isso pode tornar o grupo lugar sagrado onde cada um se reconhece, onde fomenta o sentido de transcendência do encontro e se sente espontaneamente responsável pelo seu testemunho pessoal.
Como se vê, neste tempo de crise, há tanta coisa a repensar… Não basta lamentar que as coisas estão mal, à espera que sejam os outros a fazer com que elas melhorem.




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