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“A corrupção é a maior ameaça para a democracia”

É muito sintomática a circunstância de a prevenção e o combate (o combate, não a conversa sobre o combate) à corrupção não fazerem parte da agenda da generalidade dos políticos, designadamente dos que, do poder local ao poder central, ocupam cargos executivos. E, no entanto, esse combate não deixa de ser cada vez mais urgente. “Como é possível imaginar que podemos salvar a democracia, se, por um lado, não há crescimento económico e se, por outro, todas as classes dominantes aparecem corrompidas?” A pergunta era feita pelo sociólogo e economista francês Alain Caillé, entrevistado pela revista La Vie, a propósito do recente lançamento do Manifesto Convivialista, de que aqui se falará num próximo domingo.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
21 Jul 2013

É muito sintomática a circunstância de a prevenção e o combate (o combate, não a conversa sobre o combate) à corrupção não fazerem parte da agenda da generalidade dos políticos, designadamente dos que, do poder local ao poder central, ocupam cargos executivos. E, no entanto, esse combate não deixa de ser cada vez mais urgente. “Como é possível imaginar que podemos salvar a democracia, se, por um lado, não há crescimento económico e se, por outro, todas as classes dominantes aparecem corrompidas?” A pergunta era feita pelo sociólogo e economista francês Alain Caillé, entrevistado pela revista La Vie, a propósito do recente lançamento do Manifesto Convivialista, de que aqui se falará num próximo domingo.
Nessa publicação, aponta-se a existência de quatro crises planetárias: moral, política, económica e ecológica. Alain Caillé garante que a mais grave é a moral. “Porque a sua resolução condiciona todas as outras”. A seguir, explica porquê: “Reparemos nas discussões sobre o desenvolvimento sustentável; podemos imaginar todos os géneros de soluções técnicas, mas se não houver pessoas e instituições credíveis para as pôr em prática, nada se conseguirá”. Um verdadeiro desenvolvimento sustentável, acrescenta Caillé, reclama uma democracia sustentável, que necessita de um pilar ético sustentável. “É uma condição indispensável para que os homens e as mulheres políticas não caiam na hubris, no desmedido. E a tradução concreta e visível do excesso é a corrupção, seja financeira, seja pelo poder. Ela explode em todo o lado, no mundo inteiro”.
“Na Europa de hoje, a corrupção é a maior ameaça para a democracia. As pessoas que perdem a confiança no Estado de Direito estão em franco crescimento em todo o continente”, disse, em Janeiro, o secretário-geral do Conselho da Europa, o norueguês Thorbjørn Jagland. “É difícil contestá-lo”, garantia há dias o Linkiesta, especialmente, acrescentava o jornal italiano, se considerarmos que os países mais corruptos ou não são democracias ou, como sucede na Europa, são quase todos democracias em crise.
O Linkiesta quis saber se os católicos eram mais permeáveis à corrupção do que os protestantes. Os especialistas escutados pelo jornal acham que não. “Não devemos dar demasiada importância à religião em detrimento de outros factores estruturais que podem influenciar a maneira como as pessoas encaram a corrupção e se comportam em relação a ela”, dizia Luís de Sousa, investigador da Universidade de Lisboa e presidente da secção portuguesa da Transparency International.
Para o comprovar, apresentava um exemplo: “Diz-se que as nações do mundo menos corruptas são protestantes, mas se olharmos para a zona inferior da tabela de classificação, destaca-se a presença de muitos países da África subsariana que foram colonizados por nações protestantes”. Gianfranco Pasquino, professor da Universidade Johns Hopkins, em Bolonha, subscreve: “Claro que a religião conta; mas, por exemplo, os católicos de países de maioria protestante não são mais corruptos do que os seus concidadãos luteranos e calvinistas. O que conta é a estrutura geral de cada sistema”.
“A corrupção flutua, pois, no líquido amniótico de uma cultura, com várias décadas às costas, que converteu o dinheiro no principal padrão de conduta”, escrevia, na sexta-feira, no diário El País, Joan Ridao, professor do Departamento de Direito Constitucional e
Ciência Política da Universidade de Barcelona. Para Ridao, há uma sensação generalizada de que “a política é a arte de enganar, de servir o interesse particular, de adular os poderosos e extorquir os que não o são”. Muitos e muito heterogéneos factores intervêm para constituir essa percepção. Um deles é o desânimo colectivo ante a crise económica, provocada pelo afã desregulador do fracassado modelo neoliberal, que o Nobel da Economia Joseph Stiglitz disse ser “um cocktail adulterado: três quartas partes de mentira e uma quarta parte de avidez”. Mas o factor que mais contribui para formar a péssima imagem dos políticos é constituído por “reiterados episódios de corrupção”.
Se um dos pressupostos básicos da antropologia moderna assenta na verificação de que as pessoas se adaptam às convenções sociais do meio, e a corrupção é uma prática disseminada, este consenso em nome do realismo e do pragmatismo político deve começar a ceder e a demonstrar a sua debilidade na lógica política e económica actual, pede Joan Ridao. Para este professor, “a dura crise, com milhões de desempregados e o risco que tal representa para a coesão social, além de exacerbar os ânimos, requer maior contundência e exemplaridade das instituições, que devem estar à altura dos sacrifícios das pessoas”.

PS: Entre nós, prosseguem os negócios que, como ontem dizia a CDU, consolidam os interesses particulares associados à construção civil e que conflituam com o interesse geral da cidade e da população.




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