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Homens da Noite

Há algumas décadas atrás, tempo da minha meninice, era frequente ver–se retratos ou simples pinturas em casas particulares ou igrejas, onde se via o diabo ou os anjos de Deus à espera que os moribundos dessem o último suspiro. Tais retratos e pinturas apelavam à consciencialização dos vivos, para que durante as suas vidas tivessem cuidado com a saúde espiritual, as suas relações com os outros e com Deus.

Artur Soares
19 Jul 2013

Há algumas décadas atrás, tempo da minha meninice, era frequente ver-
-se retratos ou simples pinturas em casas particulares ou igrejas, onde se via o diabo ou os anjos de Deus à espera que os moribundos dessem o último suspiro. Tais retratos e pinturas apelavam à consciencialização dos vivos, para que durante as suas vidas tivessem cuidado com a saúde espiritual, as suas relações com os outros e com Deus.
Então verificava-se que o diabo, de forquilha em punho, cornos devidamente afiados e rabo empinado, aguardava ansiosamente pela sua presa, isto é, pela alma a partir, quer fosse de pessoa pobre ou não, feliz ou dorida pela vida passada.
Hoje, que bem conheço os homens e o diabo, não posso deixar de ironizar face a semelhantes retratos e pinturas de então, uma vez que ao diabo nunca lhe pertencerão os pobres, os simples e os doridos da vida.
Ao diabo interessa-lhe outro género de homens. Talvez uns Hitler,s ditadores e carniceiros; uns Lenines, que julgavam os homens selvagens e que só eles os podiam dominar com todo o ódio que lhes mereciam; uns avarentos que tudo querem e nada dão, sendo a antítese da caridade; ricos selvagens, predadores prudentes, que durante o dia e a noite programam as formas de rapacear o seu semelhante; certos médicos e advogados, que por medo dos primeiros e por oportunismo dos outros, se tornam em açambarcadores: os primeiros – por medo – porque receiam o milagre e compreendem ou sentem que a vida dum homem, pura e sublinhada pela fé, faria deles um bando de espectros supér-
fluos; os outros, ao pensar que morrem de fome, não se importam de alugar a língua para subtrair aos culpados o castigo dos seus atos; aos fazedores de guerra, que pensam que nada é mais importante que a guerra, porque os outros homens são um bando de vadios; políticos insensíveis, que não passando de maus agentes funerários, atiram o povo para as entranhas da terra, porque não cumprem o que as leis determinam.
É evidente que o mundo atual é confuso e vivem alguns milhões sem Deus nas suas vidas. Por isso, a duplicidade no homem de hoje é tão visível que, tantos, já nem a si mesmos se surpreendem. Parecem ter duas almas: a que atua de dia e a que atua na noite.
Ninguém discorda de que a maioria dos poderosos do mundo vivem vidas angustiantes. Porque desconhecem o amor, a solidariedade e o serviço. Tantos, fazem da sua memória e dos seus pensamentos autênticos recipientes de lixo.
A humanidade está presentemente mais mal que bem. A Europa tem problemas graves, que alguns teimam em não deixar resolver por obediência às teorias económicas caducas e a ideais de (i) pequeno.
Atuam estes homens da noite, de noite. Uns em nome do comunismo, do fascismo, do mercenarismo, do materialismo ateu, da maçonaria, etc. desprezando estes noctívagos sem luar, as leis naturais, os direitos do homem e a vontade de Deus.
Atuam como artilheiros nos Parlamentos contra os débeis da sociedade; colocam-
-lhes as amarras da prepotência, tal como fizeram à pessoa do italiano Rocco Buttiglione, por ser católico e não lhe darem a liberdade de denunciar atos e situações que foram condenados pelo próprio Cristo.
Outros homens, de alma desabitada, que impondo o que lhes apetece pelo poder do dinheiro, não passam de infecundos, fracassados e mesquinhos. Vivem na sombra, agitam-se na sombra e vivem segundo a sombra, porque homens vendidos ou cadeados ao que nunca lhes pertenceu.
Esta gente do deserto pensa que o tempo pára, que a verdade se desconhece e que a história jamais se contará. E como dizia Papini: “não há imbecil que, no final do dia, não julgue imbecis os seus amigos, os seus vizinhos e, nesse dia, nesse julgamento – o verdadeiro imbecil – julga-se um iluminado”.
Os outros, os que trabalham de dia ganhando o pão que bem saboreiam à noite, são apontados e preteridos por defenderem a paz, o bem comum, a disciplina e a justiça social, o homem todo, direitos e Deus que, por serem valores de fé e de verticalidade, provocam nos homens da noite o deserto interior e a frustração.
Os homens da noite, das sombras, podem comprar tudo e terem o mundo a seus pés, mas nunca comprarão o tempo nem o tempo com Deus.




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