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Os santos moram ao teu lado

Santa Marta de Bouro, em Amares, sempre foi conhecida como uma terra farta e de gente de carácter e com uma consolidada tradição de religiosidade, mas agora mais conhecida se tornou por aí ter nascido o Beato Manuel José de Sousa (Irmão Mário Félix), mártir da fé na guerra civil espanhola. De quase desconhecido na sua terra, acaba de ser apresentado à comunidade católica de todo o mundo como exemplo de heroicidade na fé. Talvez por ser ainda pouco conhecido na sua terra, os seus conterrâneos ainda não o reconheçam como alguém heroico na fé.

M. Ribeiro Fernandes
14 Jul 2013

Costuma-se dizer que “santos de casa não fazem milagres”, mas, pode haver uma outra razão para este não reconhecimento: o imaginário que se foi criando de que a santidade é algo de grandioso e excepcional que chama a atenção de toda a gente. Não é verdade. Ser santo deveria ser o normal da condição humana; se assim não fosse, quem é que poderia ser santo? A grandiosidade da santidade está no coração, está na vida e na forma como a vivem com os outros. Aí é que está o excepcional.

1. O que define os santos não são os milagres impressionantes (isso só a Deus pertence), mas a sua vida, o seu coração, a sua fé. A vida é a única teofania a que se deve prestar atenção; o resto é aderência cultural. Os simples de coração são os verdadeiros sábios do sentido da vida. Não do sentido teórico, mas do sentido da vida na situação concreta em que cada um se encontra. É na vida concreta que cada um que pode ser santo, procurando dar-lhe um sentido de justiça, de amor e de fé.
Os ideais não existem: são apenas um guião de vida e um apelo a prosseguir por um caminho. A única coisa que existe é a situação concreta da vida de cada um, o que não quer dizer que os ideais a não possam influenciar. É na vida concreta que cada um exerce a sua responsabilidade. Nem sequer compete ao homem perguntar qual é o sentido da sua vida, porque nunca chegará a saber que futuro a vida lhe reserva, mas sim reconhecer que ele é que é interpelado pela vida para lhe encontrar um sentido. Só ele é responsável pela resposta que der na situação concreta da sua vida.

2. O Beato Manuel José de Sousa (e estou a socorrer-me do livro que o Cónego Narciso Fernandes escreveu) percorreu este caminho ligado à vida que todos nós percorremos, uns de uma maneira, outros de outra. Tendo nascido numa época de grande carestia económica e social, como foi a que se seguiu à I Grande Guerra e antecedeu a guerra civil espanhola, o seu primeiro desafio foi, como toda a gente, procurar melhores condições de vida noutras terras. Emigrou para o Brasil, como tantos outros no seu tempo, à procura de melhores condições económicas. O facto de ter emigrado para o Brasil é indicativo de duas coisas: eventualmente ter por lá parentes ou conhecidos próximos e ter recursos económicos para o fazer. Não era qualquer pessoa sem recursos que podia ir para o Brasil. Por outro lado, as ligações que por lá fez com instituições religiosas mostram também que era uma pessoa com uma arreigada cultura religiosa familiar.
As coisas não lhe terão corrido economicamente muito bem e decidiu regressar a Portugal. Arranjou emprego em Lisboa. E novamente aí se relaciona com instituições religiosas, acabando por entrar para a Congregação de S. João Baptista de La Salle. Essa decisão levou-o para o Noviciado, em Espanha. E foi aí, em Griñon, que se confrontou com a opção extrema de martírio pela fé. Mas, não foi ser fuzilado por ser cristão que o fez santo, porque santo já ele procurava ser ao longo da sua vida; foi o facto de assumir heroicamente a sua fé e de a não negar. Isto demonstra que tinha uma confiança e uma intimidade com Deus em grau heroico.

3. Quem estiver à espera de encontrar feitos maravilhosos para o poder considerar santo pode ficar desiludido, porque a santidade não é algo de exótico. Os santos são aqueles que procuram descobrir o sentido da sua vida e vivê-lo em coerência com a sua fé, porque é o Amor que santifica. Os santos são pessoas como as outras, a diferença está no coração e no sentido que dão à sua vida, mesmo no caso de sofrimento inevitável. O que há de maravilhoso na vida de um santo passa-se ao nível do coração.
Há muitas formas de dar sentido à vida, como a maioria das pessoas faz: procurar desenvolver as suas capacidades, criar recursos económicos para a sua subsistência, dedicar-se a qualquer causa que promova o bem comum, viver a experiência da natureza, da cultura, da bondade, da procura da verdade… mas, a forma que supera todas as outras é a do amor, viver a experiência de conhecer um outro ser humano por meio do amor ou dedicar-se por amor ao bem-estar dos outros. E, através da experiência do amor, descobrir o Amor que o transcende. À sua maneira, foi esta a escolha do Beato Manuel José de Sousa.




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